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Lançado em 2025, “Mickey 17” acompanha um trabalhador espacial enviado ao planeta gelado Niflheim para morrer em missões que nenhum colega aceitaria. Dirigido por Bong Joon Ho e inspirado no romance “Mickey7”, de Edward Ashton, “Mickey 17” transforma a clonagem humana numa sátira sobre trabalho precário, autoritarismo e colonização. Robert Pattinson interpreta Mickey Barnes, um homem endividado que abandona a Terra e aceita participar de uma expedição espacial. O problema está no cargo escolhido. Ele será um consumível, funcionário usado em experiências fatais e substituído por outro corpo sempre que morrer.

A premissa parece pesada, mas Bong Joon Ho sabe rir da crueldade sem torná-la menos incômoda. Mickey é queimado, contaminado, sufocado e enviado a lugares perigosos porque sua morte fornece dados à tripulação. Depois, uma impressora produz outro corpo, no qual são instaladas as memórias guardadas até aquele momento. A empresa chama isso de continuidade profissional. Qualquer trabalhador reconhece o raciocínio, embora dificilmente tenha sido devorado durante o expediente.

Um emprego para quem pode morrer

Antes da viagem, Mickey e Timo (Steven Yeun) precisam fugir de um agiota que ameaça matá-los. Os dois se inscrevem na missão liderada pelo político Kenneth Marshall (Mark Ruffalo), candidato fracassado que pretende fundar uma colônia em Niflheim. Timo consegue uma vaga como piloto. Mickey, sem formação valorizada pela expedição, assina o contrato de consumível sem prestar muita atenção ao significado do cargo.

A diferença entre as duas funções define a vida dos amigos dentro da nave. Timo recebe treinamento, pilota veículos e circula entre setores importantes. Mickey vira material de laboratório. Cientistas acompanham suas mortes, registram os resultados e imprimem outra versão para a experiência seguinte. Cada corpo conserva as lembranças do anterior, inclusive a memória da dor. A ressurreição, portanto, oferece pouca vantagem a quem precisa recordar todas as maneiras pelas quais já morreu.

Robert Pattinson cria um Mickey curvado, inseguro e educado demais para aquele ambiente. Sua voz anasalada reforça a sensação de que o personagem pede desculpas até quando está sendo sacrificado. O ator poderia buscar compaixão por meio do sofrimento, mas prefere revelar a resignação de quem já aceitou ocupar o último lugar da fila. Essa escolha deixa a atuação mais engraçada e também mais triste.

Dois Mickeys na mesma nave

A rotina muda durante uma missão na superfície de Niflheim. Mickey cai numa caverna habitada pelos rastejantes, criaturas nativas que a tripulação considera perigosas. Timo presencia o acidente e volta à base sem resgatá-lo. Como todos acreditam que o consumível morreu, os responsáveis pela impressora produzem Mickey 18.

Mickey 17, porém, sobrevive e retorna à nave. Ali descobre que outro corpo já ocupa sua cama, usa suas lembranças e reivindica sua identidade. A existência simultânea de duas versões recebe o nome de multiplicidade e constitui um crime grave. Caso sejam descobertos, os dois podem ser executados, suas cópias de segurança serão apagadas e nenhuma nova impressão será permitida.

A duplicidade oferece a Robert Pattinson o melhor espaço do filme. Mickey 17 é tímido, cauteloso e habituado a obedecer. Mickey 18 tem postura agressiva, fala com firmeza e demonstra raiva diante dos abusos sofridos pelas versões anteriores. Embora compartilhem o mesmo passado, cada um reage de modo diferente à possibilidade de desaparecer. Bong Joon Ho usa essa divisão para perguntar quanto de uma pessoa permanece quando corpo, memória e temperamento deixam de formar uma unidade.

Nasha Barridge (Naomi Ackie), agente de segurança e companheira de Mickey, descobre a presença dos dois. Sua participação impede que a história fique restrita a uma disputa entre cópias. Nasha reconhece ambos como indivíduos e procura protegê-los da punição aplicada aos múltiplos. A relação ganha uma estranheza divertida, mas também oferece a Mickey algo que ele raramente recebe na nave. Alguém olha para ele sem enxergar uma peça substituível.

O tirano e sua colônia

Kenneth Marshall lidera a expedição ao lado da esposa, Ylfa (Toni Collette). Ele deseja transformar Niflheim numa colônia formada por seguidores obedientes, enquanto ela controla parte das decisões domésticas e políticas do marido. O casal mistura ambição religiosa, culto à personalidade e desprezo por qualquer ser considerado inferior.

Mark Ruffalo interpreta Marshall com gestos largos, dentadura saliente e uma vaidade quase infantil. A atuação é propositalmente espalhafatosa. Em certos trechos, a caricatura pesa mais do que deveria e deixa pouca margem para surpresa. Ainda assim, o personagem representa bem uma autoridade que confunde liderança com devoção pessoal. Marshall quer fundar uma civilização, desde que todos aceitem viver conforme suas regras.

Toni Collette trabalha numa frequência mais contida. Ylfa demonstra obsessão por molhos, receitas e controle, enquanto sustenta as decisões violentas do marido. A banalidade desses interesses domésticos torna o casal ainda mais desagradável. Eles discutem comida e imagem pública enquanto Mickey morre em experiências promovidas pela própria missão.

Os rastejantes também ameaçam os planos de Marshall. A princípio, a tripulação os trata como animais que ocupam um território destinado aos humanos. A convivência revela criaturas organizadas, capazes de proteger seus semelhantes e reagir à invasão. Mickey passa a ocupar uma posição delicada entre os colonos e os habitantes de Niflheim porque sua experiência na caverna contradiz a versão defendida pelo comandante.

Uma ficção científica muito terrestre

Bong Joon Ho mistura aventura, comédia, romance e fantasia sem abandonar o enredo. A impressora humana não aparece apenas como invenção futurista. Ela garante que a empresa continue usando Mickey, mesmo depois de destruir seu corpo. A nave também depende de uma divisão rígida entre dirigentes, seguranças, técnicos e trabalhadores descartáveis. Cada setor possui privilégios próprios, e o alimento revela quem manda com uma eficiência quase cruel.

O diretor alterna mortes brutais e situações absurdas, por vezes dentro da mesma sequência. Essa variação combina com um protagonista que volta da impressora sem tempo para lamentar o que sofreu. O ritmo perde força em alguns trechos dedicados a Marshall, cuja presença extensa repete características apresentadas anteriormente. A história recupera interesse quando retorna aos dois Mickeys, a Nasha e aos rastejantes.

Steven Yeun oferece a Timo uma simpatia duvidosa. Ele é amigo de Mickey enquanto essa amizade não exige sacrifícios maiores. Quando surge uma oportunidade de obter prestígio ou segurança, sua lealdade fica mais frágil. Naomi Ackie dá firmeza a Nasha e impede que ela seja apenas o interesse amoroso do protagonista. A personagem toma decisões, enfrenta superiores e protege aqueles que a chefia pretende eliminar.

“Mickey 17” possui ideias demais e nem todas recebem o mesmo cuidado, mas sua mistura de ficção científica e sátira preserva uma energia rara. Robert Pattinson sustenta o filme ao interpretar duas versões do mesmo homem sem depender apenas de mudanças na voz ou na postura. Uma carrega o medo de morrer outra vez. A outra parece cansada de aceitar a próxima ordem.

Bong Joon Ho observa um futuro no qual empresas podem imprimir trabalhadores, autoridades reivindicam planetas e a morte virou item contratual. A graça amarga está na familiaridade desse mundo. Mickey precisa provar que merece viver para pessoas que só registram sua utilidade. Quando dois corpos passam a exigir esse direito, a impressora deixa de resolver o problema da nave e passa a expor quem sempre pagou pela missão.


Filme: Mickey 17
Diretor: Bong Joon Ho
Ano: 2025
Gênero: Comédia/Drama/Fantasia/Ficção Científica
Avaliação: 3.5/5 1 1
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