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Em 1916, na cidade inglesa de Ramsden, o maestro Henry Guthrie assume um coral desfalcado pela guerra e enfrenta a desconfiança dos moradores. A Primeira Guerra Mundial ainda parece distante das ruas de Yorkshire, mas já interfere em quase tudo. Os homens partem para o Exército, famílias aguardam notícias e atividades cotidianas perdem participantes. Em Ramsden, a sociedade coral fica sem boa parte das vozes masculinas e também sem seu maestro, convocado para o serviço militar. Mesmo cercado por despedidas e incertezas, o grupo decide manter os ensaios e preparar uma nova apresentação.

É nesse cenário que começa “Sinfonia de Guerra”, drama histórico dirigido por Nicholas Hytner e escrito por Alan Bennett. Para substituir o regente, os organizadores contratam o Dr. Henry Guthrie, interpretado por Ralph Fiennes. Ele voltou recentemente da Alemanha, não esconde o ateísmo e carrega uma vida afetiva que os moradores preferem transformar em assunto público. Sua experiência musical pesa a favor da contratação, enquanto os preconceitos locais ameaçam sua permanência antes mesmo do primeiro ensaio.

Um maestro pouco conveniente

Guthrie chega disposto a trabalhar, mas sua ligação com a cultura alemã causa desconfiança numa cidade tomada pelo patriotismo. A tensão cresce quando ele considera ensaiar uma tradução inglesa da “Paixão Segundo São Mateus”, de Johann Sebastian Bach. Um tijolo atravessa a janela da sala de audições acompanhado por um bilhete ofensivo. A mensagem deixa evidente que parte da população vê inimigos até numa partitura.

Para manter o projeto, Guthrie escolhe “O Sonho de Gerôncio”, composição do inglês Edward Elgar. A mudança deveria encerrar a discussão, porém cria outro problema. O catolicismo de Elgar e a presença do purgatório na obra desagradam alguns integrantes protestantes. Ramsden está em guerra com a Alemanha, mas sempre arruma alguns minutos para discutir religião e a vida alheia.

Ralph Fiennes interpreta Guthrie com firmeza e uma boa dose de impaciência. O maestro conhece sua capacidade e não faz esforço para parecer simpático. Essa postura lhe garante autoridade nos ensaios, embora também alimente a resistência de quem já desaprovava sua contratação. Fiennes preserva certa distância emocional e deixa as perdas do personagem surgirem em gestos contidos, sem transformar sua dor num espetáculo.

As vozes deixadas pela guerra

A falta de homens obriga Guthrie a procurar reforços fora do coral. Ele visita um hospital militar e recruta soldados feridos, que passam a dividir os ensaios com comerciantes, jovens e senhoras da cidade. Os corpos marcados pelo combate lembram aos moradores que a guerra tem consequências muito mais graves do que uma música alemã no repertório.

Entre os rapazes escolhidos estão Ellis, vivido por Taylor Uttley, Lofty, interpretado por Oliver Briscombe, e Mitch, papel de Shaun Thomas. Ainda jovens demais para terem sido enviados ao front, eles entram no coral enquanto aguardam uma idade que pode colocá-los dentro de um uniforme. Os ensaios oferecem trabalho, convivência e algum flerte, mas o recrutamento militar permanece próximo.

Ellis se aproxima de Bella, interpretada por Emily Fairn. Ela namorava Clyde, vivido por Jacob Dudman, dado como desaparecido e provavelmente morto na guerra. Sem notícias dele, Bella tenta seguir a própria vida e se envolve com Ellis. A relação cresce sob uma dúvida difícil de ignorar, pois ninguém possui informações suficientes para saber se Clyde morreu ou ainda poderá voltar.

Mary Lockwood, interpretada por Amara Okereke, também desperta o interesse de Mitch. Religiosa e dona das próprias escolhas, ela não aceita ser tratada apenas como prêmio romântico para um rapaz assustado com o futuro. Amara oferece vivacidade à personagem e dá peso a uma mulher que precisa proteger seus desejos enquanto os homens decidem quem partirá, quem cantará e quem terá permissão para permanecer.

Uma obra feita com pouco

Duxbury, vivido por Roger Allam, ocupa uma posição importante dentro da sociedade coral e deseja preservar seu espaço na apresentação. O problema é que a montagem exige vozes capazes de enfrentar uma composição difícil, enquanto os melhores cantores desaparecem aos poucos. Seu orgulho rende algumas das passagens mais divertidas, especialmente quando a qualidade musical entra em disputa com a vaidade.

Sem dinheiro para uma produção grandiosa, Guthrie adapta “O Sonho de Gerôncio” ao que Ramsden possui. O protagonista passa a ser apresentado como um soldado ferido, enquanto o Anjo ganha a figura de uma enfermeira. A escolha aproxima a composição da rotina local e oferece aos integrantes imagens que todos reconhecem. O palco deixa de representar uma ideia distante de morte e passa a lembrar os hospitais, os feridos e as ausências presentes na cidade.

Nicholas Hytner trata a preparação do concerto com leveza, mas não transforma a música numa cura milagrosa. Os ensaios não fazem desaparecer o preconceito, o recrutamento ou a falta de recursos. Eles apenas criam um lugar onde pessoas muito diferentes precisam respirar juntas e prestar atenção umas nas outras. Para um grupo que discute até a existência do purgatório, cantar na mesma tonalidade já parece uma conquista considerável.

Escolhas sob vigilância

Robert Horner, interpretado por Robert Emms, trabalha como pianista de Guthrie e enfrenta um problema ainda mais grave. Contrário à guerra, ele pretende registrar-se como objetor de consciência para não atender à convocação militar. A decisão o coloca diante de uma junta hostil, formada por homens que confundem patriotismo com obediência absoluta. Guthrie tenta ajudá-lo, embora sua reputação em Ramsden possa prejudicar a defesa.

A situação de Robert acrescenta um peso político à história. Enquanto alguns rapazes temem morrer, ele precisa provar a uma autoridade que sua recusa possui fundamento moral. A guerra decide quais opiniões são aceitáveis e transforma uma convicção pessoal em ameaça de prisão. Robert Emms interpreta esse medo sem excesso, preservando a dignidade de alguém que sabe o preço de dizer não.

Edward Elgar, vivido por Simon Russell Beale, também entra na preparação do concerto. Integrantes do coral buscam sua aprovação para apresentar a obra, mas as adaptações realizadas por Guthrie podem desagradar ao compositor. Beale cria um Elgar vaidoso, sensível ao reconhecimento e pouco disposto a ver sua criação modificada por um grupo de cidade pequena. Sua presença coloca meses de trabalho sob o julgamento de um único homem.

A música entre as despedidas

“Sinfonia de Guerra” acompanha vários personagens e, por isso, nem todos recebem o mesmo desenvolvimento. Algumas relações passam depressa, enquanto outras poderiam ganhar mais espaço. Ainda assim, o conjunto combina bem com a proposta de observar uma comunidade inteira. Cada integrante carrega uma preocupação própria, mas todos dependem do mesmo ensaio, do mesmo repertório e da mesma data de apresentação.

O roteiro de Alan Bennett preserva o afeto sem adoçar a guerra. Há namoros, pequenas vaidades, discussões religiosas e cantores que nem sempre possuem o talento que imaginam. Também existem telegramas, leitos militares e convocações capazes de interromper qualquer plano. O contraste oferece graça e tristeza sem forçar nenhuma delas.

Nicholas Hytner mantém a câmera próxima dos personagens e dá espaço para que as canções revelem aquilo que eles não conseguem dizer. “Sinfonia de Guerra” ganha força quando acompanha os preparativos e mostra o custo de reunir tantas pessoas durante um período de separações. Guthrie pode levantar a batuta e iniciar o ensaio, mas cada voz presente lembra outra que já deixou Ramsden.

Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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