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Charlie Thompson inicia a história de amor com Emma Harwood servindo-lhe uma mentira de cortesia. Num café de Boston, ele vê a moça lendo, aproxima-se e finge conhecer o livro só para puxar conversa. Emma não reage, Charlie volta para a mesa humilhado e, depois, descobre que ela tem deficiência auditiva em um dos ouvidos. A segunda tentativa funciona. Dois anos mais tarde, ele dirige um museu; ela trabalha com literatura; os dois estão a poucos dias de um casamento planejado com o zelo de quem julga ter eliminado o acaso da própria vida. Kristoffer Borgli, também responsável pelo roteiro, converte essa pequena falsidade inaugural numa rachadura que, embora quase invisível, já atravessava toda a casa.

As primeiras sequências são uma sátira divertida à indústria matrimonial, com ensaios fotográficos artificiosos, floristas, fornecedores, uma professora de dança invasiva e a estranha seleção de uma DJ que Emma e Charlie acreditam ter visto consumindo heroína num parque. Zendaya e Robert Pattinson sustentam bem essa etapa de constrangimentos leves, ela preservando uma serenidade ligeiramente defensiva, ele deixando escapar a natureza ansiosa de um homem que precisa saber como cada coisa termina antes de permitir que comece. Rachel e Mike, o outro casal formado por Alana Haim e Mamoudou Athie, completam o pequeno círculo de adultos educados, endinheirados e aparentemente esclarecidos, gente que sabe escolher vinhos, discutir livros e pronunciar condenações morais sem levantar a voz.

Durante uma degustação, regada a álcool e à confiança temerária que costuma acompanhá-lo, eles resolvem contar a pior coisa que já fizeram. Mike admite ter usado uma antiga namorada como escudo durante o ataque de um cachorro. Rachel recorda que trancou uma criança num trailer abandonado. Charlie confessa a perseguição virtual que obrigou um colega de escola a mudar-se com a família. Então Emma revela que, aos quinze anos, planejou entrar armada no colégio onde estudava, levando a espingarda do pai. Ela desistiu antes do massacre, construiu outra vida e tornou-se militante contra armas de fogo. Para Charlie, o fato de os tiros não terem sido disparados altera muito pouco. A mulher sentada diante dele ganha os contornos de uma desconhecida.

A confissão e o tribunal doméstico

É um argumento deliberadamente monstruoso, e Borgli sabe que pôs o filme sobre uma superfície sensível demais para qualquer movimento descuidado. O cineasta norueguês, que já havia feito da autodestruição social matéria de “Doente de Mim Mesma” e “O Homem dos Sonhos”, interessa-se pela velocidade com que uma pessoa pode ser reconstruída pela opinião alheia. Emma não matou ninguém, cresceu e aparentemente passou a combater a cultura que quase a engoliu. Charlie, contudo, apega-se à adolescente que ela foi, como se o pensamento de um crime tivesse deixado cadáveres reais. O filme encontra aí seu melhor conflito, ainda que escolha passar tempo excessivo dentro da cabeça dele e transforme Emma, em vários momentos, na própria arma dramática que Borgli condena.

Pattinson faz do noivo uma criatura patética e perigosa na mesma medida. Charlie perde o rendimento no trabalho, imagina ataques, fracassa na cama, procura cumplicidade entre amigos e vê em cada gesto de Emma a confirmação de que dormira ao lado de uma impostora. O ator explora os olhos fugidios, a fala entrecortada e o corpo sempre um pouco fora do lugar, como se o personagem já ensaiasse fugir. Zendaya trabalha numa frequência mais baixa e mais difícil. Emma guarda a humilhação no rosto, recusa-se a implorar absolvição e parece compreender antes do noivo que qualquer defesa apenas alimentaria o tribunal doméstico montado contra ela. Borgli deveria ter-lhe concedido mais espaço para existir fora da culpa; ainda assim, a atriz deixa evidente o cansaço de quem passou metade da vida tentando impedir que a outra metade a definisse.

Quando a casa perde a temperatura

A fotografia de aspecto caseiro, os cortes abruptos e a trilha de Daniel Pemberton fazem os ambientes acolhedores perderem aos poucos a temperatura. O apartamento do casal, os salões do museu e as mesas cuidadosamente postas começam a parecer cenários preparados para uma catástrofe social. A comédia nasce menos das piadas que do protocolo, da necessidade de sorrir para fornecedores, parentes e convidados enquanto a intimidade apodrece. Nesse ponto, “O Drama” aproxima-se do desconforto conjugal de “Força Maior”, de Ruben Östlund, embora Borgli seja mais interessado na histeria particular de Charlie que na anatomia completa do casal.

A cerimônia acontece, atravessada por outra traição, ferimentos, vômito, discursos malsucedidos e uma recepção na qual cada tilintar de talher anuncia novo desastre. Depois, ainda vestidos para as bodas, Emma e Charlie voltam ao restaurante onde costumavam encontrar-se e encenam uma primeira conversa, como se pudessem reiniciar a vida no ponto anterior às revelações. Eles permanecem juntos, embora o desfecho não ofereça reconciliação confortável. Borgli deixa-os condenados à representação que escolheram, dois recém-casados fingindo não se conhecer porque descobriram que talvez nunca tenham sabido quem estava do outro lado da mesa.


Filme: O Drama
Diretor: Kristoffer Borgli
Ano: 2026
Gênero: Comédia/Drama/Romance
Avaliação: 4/5 1 1
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