Há alguma coisa de obscena na facilidade com que o crime organizado converteu-se em entretenimento. Durante anos, traficantes ganharam mansões, carros importados, mulheres, frases de efeito e uma espécie de majestade pop que o cinema e a televisão ajudaram a perpetuar. Policiais, quando apareciam, eram corruptos, ineptos ou cadáveres esperando sua vez. Chava Cartas mexe justamente nessa equação em “La Captura”, mas sem recorrer ao truque simplório de transformar seus homens da lei em super-heróis. Arturo Carmona e Héctor Rosales são dois sujeitos cansados, mal pagos e suficientemente lúcidos para saber que, naquele pedaço do México, cumprir o dever pode ser uma forma particularmente estúpida de morrer.
Inspirado nas crônicas de Héctor de Mauleón sobre a recaptura de Joaquín “El Chapo” Guzmán, em 8 de janeiro de 2016, o roteiro de Bernardo Esquinca começa quando tudo que parecia extraordinário já aconteceu em outro lugar. Guzmán escapara de uma operação da Marinha em Los Mochis, em Sinaloa. Atravessara o sistema de drenagem e seguia em fuga ao lado de Jorge Iván Gastélum, o Cholo Iván. Carmona e Rosales não sabem de nada disso. Eles estão no fim de mais uma jornada de trabalho. Percebem um automóvel em alta velocidade, consultam os dados do veículo e descobrem que há registro de roubo. Uma ocorrência banal. Minutos depois, o homem mais procurado do México está sob a guarda dos dois.
Quando a farda deixa de proteger
Cartas compreende que o acontecimento só interessa porque aqueles policiais não faziam ideia da História na qual acabavam de entrar. Alfonso Herrera, como Carmona, deixa o assombro evoluir para uma tensão quase física. Noé Hernández confere a Rosales um pragmatismo mais seco, a prudência de quem conhece bem demais o terreno em que pisa. Eles têm um prisioneiro valiosíssimo dentro da viatura, mas não sabem a quem podem entregá-lo. O cartel pode chegar antes dos reforços. Um superior pode trabalhar para o cartel. O sujeito que atende ao telefone pode ser aliado ou carrasco. De repente, um uniforme não significa autoridade, mas exposição.
É nesse estreitamento progressivo do mundo que “La Captura” funciona melhor. Ruas escuras, o interior sufocante da patrulha, um motel onde os homens esperam auxílio e a impressão de que qualquer ruído anuncia uma execução permitem ao diretor reduzir o aparato habitual das produções sobre narcotráfico. Não se precisa de uma montanha de cocaína, tigres em quintais de haciendas ou sicários desfilando metralhadoras douradas. Basta um telefone tocar.
Héctor Kotsifakis percebe isso ao compor Guzmán. Seu traficante não precisa gritar para dominar o ambiente, e é muito mais ameaçador quando conversa. Primeiro vem o dinheiro, uma quantia capaz de alterar a vida de homens que jamais chegarão perto de algo semelhante trabalhando honestamente. Depois, diante da recusa, aparecem as ameaças. Carmona e Rosales têm família. O criminoso sabe. Eles querem continuar vivos. Ele também. A negociação passa, então, a ser menos sobre liberdade que sobre o preço de uma consciência.
O preço de não se vender
Cartas pisa num terreno perigoso quando insiste em apresentar seus protagonistas como exemplos de incorruptibilidade. Heróis excessivamente limpos costumam ter pouca serventia para o drama. O próprio desfecho histórico é conhecido. O suspense nunca pode apoiar-se seriamente na pergunta sobre quem está algemado ao final da noite. O diretor encontra uma saída melhor: interessa-lhe saber quanto custa chegar até lá. A previsibilidade de algumas situações — a suspeita de traição, os telefonemas ameaçadores, a demora dos reforços — diminui a potência do segundo ato, mas não dissolve a tensão criada por Herrera e Hernández.
No fundo, “La Captura” é menos um filme sobre Joaquín Guzmán que sobre dois homens anônimos diante de uma possibilidade de enriquecimento instantâneo e de uma probabilidade bastante concreta de morte. O capo ocupa o banco traseiro, e essa talvez seja a melhor decisão de Cartas. Pela primeira vez, quem parecia pequeno naquela história fica grande. O homem cuja fotografia correu o planeta inteiro é que vai diminuindo dentro do quadro. O heroísmo de Carmona e Rosales não consiste em capturar El Chapo. Consiste numa coisa muito menos cinematográfica e, por isso mesmo, mais rara: eles apenas não se venderam.

