Hollywood passou décadas juntando dois homens que se detestavam, entregando-lhes pistolas e uma investigação qualquer e esperando que, depois de algumas perseguições, um tiroteio, duas bebedeiras e um punhado de insultos, descobrissem que eram melhores amigos. “48 Horas” (1982), de Walter Hill, e “Máquina Mortífera” (1987), de Richard Donner, transformaram essa equação numa espécie de mandamento do cinema policial. Em “As Bem-Armadas”, Paul Feig troca os marmanjos por Sandra Bullock e Melissa McCarthy, mas tem a inteligência de não tornar a experiência mais delicada por causa disso. Pelo contrário. As duas comportam-se muito pior.
Sarah Ashburn é uma agente do FBI tão competente quanto insuportavelmente consciente da própria competência. Ela resolve casos, corrige colegas, sabe que merece uma promoção e não entende por que ninguém demonstra entusiasmo diante da possibilidade de tê-la como chefe. Sandra Bullock sabe lidar muito bem com mulheres que confundem autocontrole com felicidade. Dá à personagem uma rigidez corporal que já é engraçada antes que ela abra a boca. Ashburn parece ter engomado até a alma.
As Bem-Armadas e a química do confronto
Shannon Mullins é o outro extremo. Policial de Boston, anda como se todas as calçadas lhe pertencessem, invade espaços, ameaça suspeitos e emprega palavrões como sinais de pontuação. Melissa McCarthy transforma a agressividade da personagem numa linguagem própria, e Feig deixa que ela ocupe o quadro sem desculpas. Não se trata apenas da gorda engraçada colocada ao lado da estrela bonita — expediente que Hollywood explorou até a exaustão —, porque Mullins nunca está ali para servir Ashburn. Muitas vezes é exatamente o contrário.
O roteiro de Katie Dippold arranja o pretexto habitual. Ashburn vai a Boston atrás de Larkin, um chefão do tráfico cuja identidade ainda é nebulosa, e acaba atravessando uma investigação conduzida por Mullins. As duas se estranham imediatamente e começam uma competição pueril por autoridade, informação, espaço físico e até pela precedência ao passar por uma porta. A investigação policial importa menos que esse contínuo teste de resistência entre duas mulheres que sempre trabalharam sozinhas e parecem orgulhosas disso.
É também aí que o filme escapa de sua própria banalidade. A trama envolvendo Larkin poderia estar em uma dúzia de produções policiais e, retiradas Bullock e McCarthy, sobraria muito pouco. Demián Bichir, Marlon Wayans e Michael Rapaport circulam por uma história que jamais demonstra grande interesse em conceder-lhes peso. Até Jane Curtin, formidável como a matriarca da família Mullins, aparece menos do que deveria. Feig sabe onde está seu filme e abandona sem remorso quase tudo que ameaça afastá-lo das protagonistas.
Uma fórmula velha em boas mãos
Quando Ashburn conhece a família da parceira, “As Bem-Armadas” atinge uma de suas zonas mais divertidas. Mullins prendera o próprio irmão, Jason, e os parentes interpretam o gesto como traição imperdoável, numa daquelas famílias em que todo almoço já começa a dois minutos de uma guerra civil. Ashburn, que mal consegue conversar com seres humanos em circunstâncias normais, torna-se uma espécie de corpo estranho lançado no meio daquela algazarra. Bullock ganha nesses momentos porque não disputa a violência cômica de McCarthy; responde com constrangimento, olhos arregalados e uma vontade desesperada de continuar parecendo superior.
Há excesso, claro. A improvisação às vezes prolonga piadas que já chegaram ao destino. Uma sequência envolvendo uma traqueotomia aposta demais na repulsa, e o caso policial vai ficando tão desimportante que o filme precisa lembrar de tempos em tempos que existe um criminoso a ser capturado. Mas isso também revela alguma segurança de Feig. Ele não tenta convencer ninguém de que descobriu uma nova maneira de fazer suspense policial. Descobriu, isso sim, duas atrizes capazes de transformar uma fórmula velha num espetáculo de timing.
O êxito de “As Bem-Armadas” não está propriamente em provar que mulheres podem ocupar o lugar dos homens no buddy cop. Essa discussão envelheceu. O que permanece é a maneira como Bullock e McCarthy fazem duas pessoas profundamente solitárias reconhecerem, a contragosto, que talvez precisem de alguém. Antes disso, naturalmente, elas se xingam, se empurram, bebem demais e quase destroem Boston. Amizades verdadeiras já começaram por muito menos.

