Fracassos às vezes precisam apenas de tempo suficiente para desmentir o próprio fracasso. Quando “Um Sonho de Liberdade” chegou aos cinemas americanos em setembro de 1994, quase ninguém apareceu. Custara cerca de 25 milhões de dólares, encontrou pelo caminho “Forrest Gump” e “Pulp Fiction”, terminou sua primeira passagem pelas salas muito abaixo do esperado e ainda carregava um título que Morgan Freeman considerava impossível de guardar na memória. Meses depois, vieram sete indicações ao Oscar e nenhuma estatueta. O filme poderia ter acabado aí. Em vez disso, prosperou no vídeo, tornou-se presença constante na televisão e fez aquilo que Andy Dufresne pratica ao longo de décadas na Penitenciária de Shawshank: esperou.
Frank Darabont estreava na direção de longas adaptando “Rita Hayworth and Shawshank Redemption”, novela publicada por Stephen King em 1982. A associação com o escritor poderia levar a monstros, hotéis assombrados ou adolescentes telecinéticos, mas aqui o horror é todo humano. Em 1947, Andy, um banqueiro de modos discretos, é condenado pelo assassinato da mulher e do amante dela e recebe duas penas de prisão perpétua. Ele insiste na inocência, declaração que em Shawshank não impressiona ninguém. Segundo os próprios presos, todos ali são inocentes.
A prisão começa onde a esperança termina
Tim Robbins compreende desde a primeira cena que Andy só funcionaria como personagem se parte dele permanecesse inacessível. Fala pouco, observa muito e demora a aproximar-se de Ellis Boyd Redding, o Red de Morgan Freeman, homem que consegue introduzir na prisão quase qualquer coisa que alguém esteja disposto a comprar. O primeiro pedido de Andy é um pequeno martelo para pedras. Depois vem um pôster de Rita Hayworth. Darabont apresenta esses objetos sem qualquer solenidade, como miudezas capazes de tornar minimamente suportável uma existência na qual os dias não servem para marcar o tempo, mas para apagá-lo.
A amizade entre Andy e Red permite que “Um Sonho de Liberdade” escape do sentimentalismo que o ronda sem jamais abandoná-lo completamente. Freeman narra boa parte da história com aquela voz que parece conhecer o desfecho do mundo e, ainda assim, não ter pressa nenhuma em contá-lo. Red entende a prisão melhor do que os guardas e sabe que grades não terminam nas paredes: depois de décadas, um homem pode sentir medo justamente quando lhe abrem o portão.
Brooks Hatlen é a demonstração mais dolorosa disso. James Whitmore transforma o velho bibliotecário num homem cuja liberdade chega tarde demais, e por alguns minutos o filme deixa de pertencer a Andy e Red. Darabont poderia explicar longamente o que a institucionalização faz com alguém. Prefere mostrar Brooks tentando descobrir como atravessar uma rua, trabalhando num supermercado, alimentando um pássaro imaginário com as lembranças de outro que deixara para trás. Nenhum sermão faria melhor.
Pequenos gestos contra o tempo
Andy encontra sua própria maneira de resistir. Aproveita os conhecimentos financeiros para auxiliar guardas, organiza a biblioteca, ensina presos e, numa das sequências que definiram o filme, tranca-se na sala do diretor e põe uma ária de Mozart nos alto-falantes da penitenciária. Por alguns minutos, homens acostumados a ordens, pancadas e portas de aço olham para cima sem entender as palavras cantadas por duas mulheres. Não precisam entender. Darabont talvez carregue a cena de simbolismo, e Thomas Newman sabe exatamente quando fazer a música avançar, mas a beleza ali não pede desculpas.
Samuel Norton, o diretor da prisão vivido por Bob Gunton, torna-se a síntese de tudo que Shawshank tem de apodrecido: Bíblia numa mão, dinheiro sujo na outra. Clancy Brown, como o capitão Byron Hadley, acrescenta a violência braçal que falta ao superior. Quando Andy passa a ser útil aos esquemas financeiros de Norton, sua inteligência transforma-se em mais uma cela. Nem mesmo a possibilidade de provar a inocência interessa a quem lucra com sua permanência atrás das grades.
Roger Deakins fotografa a prisão como um lugar que, curiosamente, nunca precisa ser inteiramente escuro para parecer sufocante. O céu existe. A chuva existe. Há campos, árvores, paredes banhadas pelo sol. O cárcere de Darabont não depende do breu, porque sua força está justamente na percepção de que o mundo continua acontecendo do lado de fora enquanto aqueles homens envelhecem.
A espera que venceu a sentença
É possível acusar “Um Sonho de Liberdade” de manipular o público, e ele manipula. Há música entrando na hora certa, coincidências providenciais e uma devoção talvez excessiva à dignidade de Andy. Pouco importa. Darabont não confunde esperança com a certeza infantil de que tudo terminará bem. Esperar, para aqueles homens, é trabalho pesado. Exige suportar o tempo quando o tempo já não promete nada. Andy Dufresne passa anos fazendo exatamente isso, e o próprio filme também precisou escapar de uma sentença prematura para chegar aonde chegou. Algumas liberdades levam uma vida inteira.

