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“Efeito Colateral” deveria ter chegado aos cinemas americanos em outubro de 2001. Então veio o 11 de Setembro. Um filme cujo protagonista assiste à mulher e ao filho morrerem num atentado cometido por um terrorista estrangeiro tornou-se, de uma hora para outra, uma mercadoria impossível de lançar. E a Warner adiou a estreia para fevereiro de 2002. A História havia invadido uma produção de Arnold Schwarzenegger sem pedir licença, conferindo uma gravidade involuntária a uma trama concebida essencialmente para fazer explodir coisas.

Andrew Davis já demonstrara em “O Fugitivo” (1993) que sabe transformar perseguição em caráter. Em “Efeito Colateral”, tenta repetir parte da operação ao converter Gordon Brewer, um bombeiro de Los Angeles, em homem disposto a atravessar fronteiras para alcançar Claudio Perrini, o guerrilheiro conhecido como El Lobo. Brewer chega atrasado a um encontro com a família e vê um atentado diante do consulado colombiano matar Anne e Matt, sua esposa e seu filho. Pouco depois, descobre que a engrenagem burocrática do governo americano não pretende dar à tragédia particular a urgência que ele exige. Então decide agir sozinho.

A vingança atravessa a fronteira

Schwarzenegger nunca foi o intérprete mais adequado para homens comuns, até porque há pouco de comum num sujeito de quase dois metros, com ombros de armário e sotaque austríaco, mas Davis tenta tirar proveito justamente do desajuste. Gordy não é soldado, agente secreto ou mercenário. É bombeiro. Conhece fogo, edifícios, resgates e procedimentos de emergência, e esse repertório serve ao diretor como uma justificativa engenhosa para algumas das façanhas que virão. O problema começa quando o filme exige que se acredite que tais habilidades bastam para que um civil entre clandestinamente na Colômbia, atravesse regiões controladas por guerrilheiros e narcotraficantes e persiga uma organização terrorista quase sozinho.

A viagem de Gordy pelo país sul-americano é também onde o roteiro de David e Peter Griffiths expõe suas limitações mais constrangedoras. A Colômbia surge como um grande território de selva, cocaína, armas e homens suspeitos, um cenário funcional para que o americano se perca e depois se reencontre. John Leguizamo aparece como Felix, administrador de uma operação ligada ao narcotráfico. John Turturro encarna Sean Armstrong, um canadense metido naquele pandemônio. Elias Koteas dá algum verniz de ambiguidade a Peter Brandt, agente da CIA que conhece a região e seus pactos impublicáveis. Há atores demais tentando tornar complexo um mundo que o roteiro insiste em simplificar.

Um mundo mais simples que o conflito

Cliff Curtis é quem consegue alguma coisa mais interessante. Seu Claudio não se considera um terrorista, e sim um combatente numa guerra contra a interferência americana. Evidentemente, isso não absolve um homem que mata civis, mas permite que o filme roce numa questão que logo abandona. Todo conflito produz versões irreconciliáveis do que seja justiça. Francesca Neri, como Selena, amplia por algum tempo essa área cinzenta e ajuda Davis a deslocar Gordy da fantasia pueril segundo a qual bastaria eliminar um vilão para que tudo voltasse à ordem.

Há sequências de ação eficientes e uma perseguição final levada com o profissionalismo de quem dirigiu “O Fugitivo”. Também há algo surpreendentemente vulnerável em Schwarzenegger quando Gordy permanece em silêncio, ainda sem saber o que fazer com a casa vazia e com a raiva que tomou o lugar da família. Pena que “Efeito Colateral” confie pouco nesses momentos e torne sempre ao músculo, às explosões e a uma geopolítica de desenho animado.

O título, involuntariamente, termina sendo mais inteligente que o filme. “Dano colateral” é a expressão asséptica com que Estados e exércitos transformam mortos em estatística, e Davis parte justamente de um homem que se recusa a aceitar que a mulher e o filho sejam apenas dois números. O problema é que sua vingança atravessa outro país deixando corpos igualmente anônimos pelo caminho. Gordy tem toda a razão para não aceitar que os seus sejam considerados dispensáveis. O filme só demora demais a perceber que os outros também não são.


Filme: Efeito Colateral
Diretor: Andrew Davis
Ano: 2002
Gênero: Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
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