O fogo do desejo que consome-nos a todos sem exceção varia de intensidade à medida que vamos nos conhecendo. E chegamos à salvífica conclusão de que, não, não há mal algum em admitir, nem que seja apenas para si mesmo, no isolamento de um quarto sem janelas, que não somos naturalmente afetos à civilidade. Desejamos o que parece-nos inestimavelmente distante porque sabemos que as chances de o alcançar são mínimas. Acatando o mesmo mecanismo, sufocamos aspirações porque elas não mostram-se-nos instigantes o suficiente, chamando de volta o que tínhamos por morto, ponto de partida de “Paixões Violentas”. Remexendo o lodo do espírito humano com a naturalidade costumeira, Taylor Hackford junta peças delicadas de um enorme quebra-cabeça, chegando a uma história que remonta a uma época bastante específica sem ser datada.
Amor e conspiração
Ninguém está a salvo de tornar-se um criado dos próprios anseios, mormente nas horas em que tudo quanto resta é só a felicidade que já não existe. É aí que se encontra Jake Wise. Jogador compulsivo e manipulador que blefa com classe e mantém um namoro algo tóxico com Jessie Wyler, filha do dono de um time de futebol americano, e depois de um prólogo ágil, entra no circuito Terry Brogan, um atleta posto na rua após uma lesão incapacitante no joelho. O caudaloso roteiro de Eric Hughes faz uma releitura de “Fuga do Passado” (1947), o cult de Jacques Tourneur (1904-1977) baseado em “Build My Gallows High” (“fui vítima da ambição”, em tradução literal; 1946), o romance policial de Daniel Mainwaring (1902-1977). Entretanto, essa parece ser a única interseção com o original, o triângulo amoroso entre os personagens de James Woods, Rachel Ward e Jeff Bridges, mestres naquela arte, misteriosa e linda, de dizer o óbvio sem aborrecer.

