As grandes decisões da vida de uma pessoa estão quase sempre à espreita, numa curva da estrada, num atalho tortuoso à primeira vista, sem se deixar perceber, sem se fazer anunciar, sem demonstrar que são a mágica possível quanto a transformar a crueza vil da realidade. A única certeza a pairar acima de nós é que a vida se constitui de sonhos, os mais delirantes, os mais absurdos, perseguidos sem descanso pelo homem, ávido por saciar a fome do espírito desde o princípio dos tempos. Sonhadores realizam-se por meio de pretensões românticas as mais loucas, argumento a partir do qual se estrutura “Corações Apaixonados”, um mosaico de histórias sobre o amor como uma experiência complexa demais para ser sempre venturoso. Ao longo de duas horas, Willard Carroll aposta nessa ideia, fugindo das armadilhas do clichê e ampliando a relevância do que leva ao público.
Coração é terra que ninguém pisa
Casais jovens e maduros dividem suas agruras, medos e decepções, num vaivém de sensações que espelha o andamento dinâmico do roteiro. Carroll esmiúça as incertezas dos personagens em episódios que dão ao filme um jeito de série sem abrir mão da profundidade e com humor. Hugh, o arquétipo do conquistador barato, deixa em casa a esposa, Gracie, para flertar com mulheres sozinhas em bares suspeitos, enquanto Gracie, por seu turno, o trai com Roger, fazendo questão de deixar claro que nunca serão mais que só amantes fortuitos. Dennis Quaid, Madeleine Stowe e Anthony Edwards batem na tecla da instabilidade emocional própria da meia-idade, seguidos em alguma proporção por Joan e Keenan que, perto dos trinta continuam a varar a noite em boates, sem estabelecer nenhuma espécie de vínculo com quem quer que seja. Angelina Jolie e Ryan Phillippe vão por aí. Mas também há espaço para Paul e Hannah, de Sean Connery (1930-2020) e Gena Rowlands (1930-2024), celebrando o 40º aniversário de casamento diante de um mal-estar do passado que volta, ou para Mildred, a mãe zelosa interpretada por Ellen Burstyn, que viaja até Chicago para visitar o filho que sucumbe à aids. Tudo isso é amor.

