Histórias de gente que por alguma razão precisa deixar sua casa sempre tratam de assuntos muito mais áridos do que parece. Nunca se podem corrigir com a necessária firmeza erros que, por terem mexido com a vida de alguém de forma tão profunda, ainda hoje constituem uma maldição. E essas feridas do passado voltam a sangrar, revigorando velhos mal-estares, tirando do armário os esqueletos. Se em muitas ocasiões viver tem todas as cores de uma farsa, por mais real e furiosa que seja, em outras tudo é estranhamente sério, urdindo o paradoxo que junta fantasias a impasses que bradam por um desfecho rápido e satisfatório. E assim “Conspiradores” alcança o público. Enquanto instiga a curiosidade do espectador, Roger Gual prepara detalhes que nem chamam atenção num olhar ligeiro, mas que acabam por ser fundamentais no momento certo, deixando o enredo numa tensão que de repente explode.
A força da paranoia
A morte de Lucía desperta uma cornucópia de suspeitas. Ela nunca bebeu, mas foi encontrada no banheiro, com um copo de vinho tinto à mão. E tinha adotado o costume de se trancar, tudo muito estranho para Ruth. Ela viaja de Berlim até o vilarejo no norte da Espanha onde a família mora para o funeral. E fica sabendo da comoção em torno do sumiço de Alejandro Huelvas, um garoto da vizinhança, que seu pai, Martín, crê ter sido raptado a mando de uma tal Certyx, gigante do ramo farmacêutico. Darío Madrona e Carlos Montero amarram essa primeira ideia à sugerida no título, um esquema monstruoso que compra cadáveres para a fabricação de cosméticos, por ser verificado. De concreto mesmo só a desconfiança de Ruth em relação ao pai, e Stéphanie Magnin encarna essa anti-heroína atenta a suas nuanças de vilania mais escancarada. E a química com José Coronado, ótimo, embaralha tudo ainda mais.

