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Entrar num avião é um exercício extraordinário de fé laica. Um passageiro pode não saber quem apertou os parafusos da fuselagem, quem escreveu as linhas de código que conversam com os comandos da cabine, quem inspecionou as peças, quem assinou relatórios ou quantas reuniões foram necessárias até que aquela máquina de dezenas de toneladas recebesse autorização para subir aos céus. Ele senta, afivela o cinto e acredita. “Queda Livre: As Consequências do Caso Boeing” começa justamente onde essa fé se rompe. Rory Kennedy retorna ao assunto que já examinara em “Queda Livre: A Tragédia do Caso Boeing”, de 2022, e descobre que quatro anos podem ser tempo demais quando a correção de um sistema depende daqueles que se beneficiavam de suas falhas.

A porta de entrada agora é John Barnett. Durante décadas funcionário da Boeing, Barnett tornou-se um dos denunciantes mais conhecidos da fabricante ao afirmar que procedimentos de qualidade e segurança estavam sendo comprometidos em meio à pressão por produtividade e redução de custos. Em março de 2024, enquanto prestava depoimento numa ação relacionada a suas denúncias, ele foi encontrado morto em seu veículo; a investigação policial concluiu tratar-se de suicídio. Kennedy poderia ceder à tentação fácil do mistério conspiratório, e felizmente sua investigação é mais perturbadora quando olha para outra direção: não para a hipótese cinematográfica de alguém ter silenciado Barnett, mas para aquilo que ele dizia quando ainda estava vivo.

O filme volta às duas quedas de Boeing 737 MAX 8 que mataram 346 pessoas, em 2018 e 2019, e segue o rastro de uma empresa que, segundo os denunciantes reunidos por Kennedy, passou a tratar engenharia e segurança como variáveis sujeitas às pressões de custo e prazo. A Boeing contesta parte dessas acusações e sustenta ter promovido mudanças em seus procedimentos, contraponto necessário num documentário que não esconde a posição de onde fala. Mais que novamente explicar o funcionamento de sistemas de voo ou repassar a anatomia das duas tragédias, Kennedy está interessada no mecanismo humano pelo qual uma organização enorme começa a considerar normal aquilo que, visto de fora, parece intolerável.

O preço dos alertas ignorados

Nesse sentido, os depoimentos são mais eficientes que qualquer computação gráfica. Engenheiros, ex-funcionários e denunciantes descrevem episódios nos quais levantaram objeções e terminaram isolados, contrariados ou tratados como obstáculos a uma engrenagem que precisava continuar girando. Kennedy manipula esse material com o vigor de uma promotora, e esse é também um limite do longa. Há momentos em que “Queda Livre” parece tão convicto de seu veredicto que repete uma conclusão que as imagens e os depoimentos já haviam tornado suficientemente clara. O didatismo, útil para quem chega agora ao caso, torna-se ligeiramente exasperante para quem assistiu ao filme anterior.

Então vem o incidente de janeiro de 2024, quando um painel de fuselagem se desprendeu de um 737 MAX 9 da Alaska Airlines em pleno voo, e a narrativa recupera a tensão que parecia pertencer ao passado. Kennedy emprega o episódio menos como prova isolada que como sintoma de uma confiança pública que continua vulnerável. O cinema documental muitas vezes se rende à comodidade retrospectiva de saber que uma catástrofe ocorreu e organizar os fatos como se todos devessem tê-la previsto. Aqui há algo mais desagradável: pessoas afirmando que avisaram, deixaram rastros, redigiram relatórios e insistiram até serem vencidas pelo cansaço ou pela estrutura.

É por isso que Barnett continua a dominar o filme mesmo quando sai de cena. Rory Kennedy sabe que transformá-lo num mártir infalível seria uma maneira de enfraquecer a própria investigação. O que importa não é imaginar uma conspiração em torno de sua morte, mas escutar o que ele e outros denunciantes disseram sobre aviões nos quais milhões de pessoas viajam. E talvez esta seja a parte mais aterradora de “Queda Livre”: aquelas máquinas espetaculares continuam a nos ensinar que voar é um milagre da engenharia. O problema começa quando os homens passam a acreditar que milagres podem funcionar por economia.

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