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A adolescência é uma época em que quinze dias podem durar quinze anos. Uma espinha parece uma catástrofe; uma mensagem não respondida adquire a gravidade de um rompimento diplomático; cruzar o corredor da escola sob os olhos dos colegas pode exigir mais coragem que atravessar um campo minado. “Quinze Dias” entende essa desproporção e tem a inteligência de não rir de Felipe por causa dela. Daniel Lieff adapta o romance de Vitor Martins preservando justamente o que poderia desaparecer com mais facilidade na passagem do livro para a tela: a intimidade algo caótica de um menino que quer ser invisível porque está convencido de que o mundo inteiro o enxerga.

Felipe está cansado. Gordo, tímido, vítima das crueldades ordinárias da escola, ele conta os dias para as férias como um condenado risca a parede da cela, planejando passar julho entre livros, séries e a segurança do quarto. Rita, a mãe vivida por Débora Falabella, destrói essa fantasia ao avisá-lo que Caio vai ficar quinze dias na casa deles enquanto os pais viajam. Nada haveria de especialmente grave nessa notícia se Caio não fosse o vizinho bonito que Felipe conheceu na infância e por quem nutriu uma paixão que preferia manter cuidadosamente embalsamada no passado. Miguel Lallo e Diego Lira entram então numa das brincadeiras mais antigas da comédia romântica — duas pessoas obrigadas a conviver até descobrirem o que existe entre elas —, mas o filme ganha frescor precisamente porque Felipe está mais preocupado em sobreviver ao próprio corpo do que em conquistar alguém.

O corpo como campo de batalha

Lallo compreende o personagem. Sua melhor ferramenta é um constrangimento permanente, quase uma vontade de pedir licença antes de ocupar espaço, e Lieff explora essa natureza sem reduzi-lo a uma vítima chorosa. Há humor em Felipe, às vezes até maldade, desejo, inteligência e aquele narcisismo inevitável dos adolescentes, que têm certeza de que todo acontecimento do universo diz respeito a eles. Caio funciona melhor quanto menos idealizado. Diego Lira começa como a criatura que Felipe inventou em sua imaginação e, gradualmente, devolve-lhe uma pessoa real, também insegura, também acuada por problemas domésticos e nem um pouco incumbida pela natureza de salvar o colega.

É nesse ponto que “Quinze Dias” acerta mais. O filme não converte o amor em prêmio por bom comportamento nem transforma Caio numa recompensa pela superação da gordofobia. Felipe precisa perceber que ser desejado não resolve automaticamente o modo como enxerga a si mesmo, e os desenhos, devaneios e pequenas fantasias que Lieff coloca sobre a imagem funcionam como extensões de uma cabeça que nunca desliga. Algumas dessas intervenções visuais parecem enfeites, verdade, mas outras traduzem melhor o personagem que páginas inteiras de diálogo.

Débora Falabella sabe o espaço que ocupa. Rita poderia tornar-se a mãe perfeita que o cinema juvenil apresenta quando precisa resolver conflitos rapidamente, mas a atriz recusa a santificação e encontra pequenas fragilidades naquela mulher que protege o filho ao mesmo tempo que tenta manter sua própria vida em movimento. A relação dos dois é das coisas mais naturais do longa. Já Sandra, a mãe de Caio interpretada por Mariana Santos, recebe tratamento apressado demais: suas posições conservadoras e a tensão que introduz na história pediam tempo, contradição, desconforto. O roteiro prefere resolver certas arestas antes que elas machuquem a atmosfera solar que decidiu conservar, e com isso perde densidade quando flerta com um drama familiar mais duro.

Um romance sem penitência

Essa opção, contudo, não é exatamente covardia. Há décadas o cinema acostumou-se a contar histórias homoafetivas como se toda paixão tivesse de pagar pedágio à tragédia antes de merecer existir. “Quinze Dias” faz justamente o contrário. O preconceito está ali, a gordofobia também, bem como a estupidez escolar e aquele horror juvenil de não corresponder ao molde que alguém decidiu chamar de normal, mas Lieff não transforma sofrimento em certificado de importância. O romance pode ser leve porque romances também são leves. Pode ser engraçado porque adolescentes riem. Pode terminar sem cadáveres, castigos ou qualquer grande penitência moral.

Talvez “Quinze Dias” seja simples demais em alguns momentos, e o roteiro de Ray Tavares, Vitor Brandt e Vitor Martins poderia ter confiado um pouco mais no silêncio de seus bons atores. Ainda assim, Miguel Lallo e Diego Lira sustentam o filme porque jamais parecem empenhados em representar uma causa; querem apenas descobrir o que fazer com o outro quando o outro está a poucos centímetros, dividindo o mesmo quarto, a mesma insegurança e aqueles quinze dias intermináveis. Para quem tem dezesseis anos, isto já é o universo inteiro. E basta.


Filme: Quinze Dias
Diretor: Daniel Lieff
Ano: 2026
Gênero: Comédia/Romance
Avaliação: 4/5 1 1
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