Discover

Todo videogame oferece uma pequena mentira: a de que basta apertar “reiniciar” para apagar um desastre. Automobilismo não. Um erro cometido a duzentos quilômetros por hora não volta ao início da fase, e foi justamente a distância entre esses dois universos que transformou Jann Mardenborough numa improvável história de cinema. Neill Blomkamp percebe que “Gran Turismo: De Jogador a Corredor” só funcionaria se o espectador acreditasse primeiro na blasfêmia que movimentou a GT Academy, projeto da Nissan e da PlayStation: um excelente jogador de simulador poderia, com treinamento, tornar-se um piloto de verdade. Aconteceu. E, como tantas histórias inacreditáveis que acontecem de fato, o cinema quase consegue estragá-la tentando torná-la ainda mais cinematográfica.

Jann, interpretado por Archie Madekwe, é um rapaz de Cardiff que passa horas diante do volante do “Gran Turismo” enquanto o pai, Steve, interpretado por Djimon Hounsou, acha que o filho deveria ocupar-se de alguma coisa menos delirante. Surge então a competição organizada pela Nissan para encontrar jogadores capazes de levar ao asfalto as habilidades desenvolvidas no simulador. Danny Moore, executivo vivido por Orlando Bloom, fareja uma extraordinária campanha de marketing; Jack Salter, ex-piloto e engenheiro interpretado por David Harbour, enxerga uma extraordinária maneira de alguém morrer. O roteiro de Jason Hall e Zach Baylin não faz muita cerimônia em separar os três arquétipos: o sonhador, o vendedor e o velho cético que inevitavelmente passará a acreditar no pupilo.

Da tela para o asfalto

E funciona. Não por causa da surpresa, praticamente inexistente, mas porque Blomkamp ainda sabe dirigir movimento. Depois de “Distrito 9” (2009), “Elysium” (2013) e outras viagens mais afeitas ao fantástico, o cineasta encontra nas corridas uma maneira bastante concreta de exercitar sua velha obsessão pela fusão entre homem e máquina. A câmera entra no carro, vibra com o motor, desliza rente ao asfalto, e gráficos inspirados no videogame surgem sobre a imagem sem que o filme se transforme inteiramente numa enorme tela de PlayStation. Quando Jann começa a compreender uma pista como antes compreendia o desenho digital dela, “Gran Turismo” encontra sua melhor ideia: a experiência virtual não substitui a realidade, mas pode ensinar alguém a enxergá-la de maneira diferente.

Madekwe é adequado justamente porque não tenta transformar Jann num herói inflado. Há algo de menino deslocado nele mesmo depois que o macacão, o capacete e o ambiente dos boxes já parecem naturais, e David Harbour aproveita essa timidez para comandar a dupla. Jack Salter é um personagem inteiramente construído para que Harbour resmungue, diga frases motivacionais fingindo que não são motivacionais e, no momento certo, revele a ferida que o fez abandonar as pistas. Qualquer outro ator poderia tornar a figura insuportavelmente previsível. Harbour a faz humana. Bloom, ao contrário, deve mesmo conservar alguma artificialidade: Danny é a face corporativa de uma experiência que nunca deixa de ser também uma gigantesca ação promocional.

Esse conflito entre realização humana e publicidade acompanha o longa inteiro. “Gran Turismo” vende carros Nissan, consoles, o jogo, a marca e a própria fantasia de que talento pode romper barreiras econômicas inacessíveis à maioria dos aspirantes a piloto. O engraçado é que tudo isso não invalida a trajetória de Mardenborough. O garoto realmente venceu a GT Academy e tornou-se profissional; sua carreira é tão improvável que Blomkamp poderia ter economizado alguns dos truques do drama esportivo tradicional.

A realidade cobra seu preço

O problema mais sério aparece quando o filme reorganiza o acidente sofrido por Mardenborough em Nürburgring, em 2015, no qual um espectador morreu. Na realidade, seu pódio nas 24 Horas de Le Mans havia ocorrido dois anos antes; o roteiro desloca a tragédia para um ponto anterior, usando-a como trauma que o personagem precisa superar antes da grande consagração. Mardenborough participou da produção e defendeu a inclusão do episódio, inclusive por considerar importante mostrar suas consequências emocionais, mas a inversão cronológica não deixa de ser uma escolha discutível: um homem morto não deveria converter-se com tanta facilidade num degrau dramático da ascensão de outro.

Ainda assim, “Gran Turismo” cruza a linha de chegada com vantagem. A parceria entre Madekwe e Harbour resiste ao excesso publicitário, as corridas têm peso, velocidade e perigo, e Blomkamp consegue o que parecia improvável: fazer de uma propriedade intelectual da PlayStation um filme sobre alguém que descobriu no videogame não uma fuga do mundo, mas a estrada para entrar nele. Às vezes a diferença entre brincar e viver está apenas no instante em que não existe mais botão para recomeçar.


Filme: Gran Turismo: De Jogador a Corredor
Diretor: Neill Blomkamp
Ano: 2023
Gênero: Biografia/Drama
Avaliação: 4/5 1 1
Leia Também