O medo pode ser uma forma de arquitetura. Primeiro ergue uma parede, depois fecha uma porta, em seguida reduz o mundo a uma fresta por onde entra a luz e, quando a vítima percebe, já não sabe se está presa porque alguém a persegue ou porque desaprendeu a sair. “A Trincheira Infinita” faz dessa progressiva amputação da liberdade uma experiência de 147 minutos deliberadamente sufocante, na qual a Guerra Civil Espanhola importa tanto pelo que se vê quanto pelo que permanece do lado de fora da casa. Aitor Arregi, Jon Garaño e Jose Mari Goenaga tratam de um dos episódios mais curiosos da longa ressaca do franquismo, os chamados “topos”, republicanos que passaram anos, às vezes décadas, escondidos para escapar das represálias. O grande achado dos diretores é não transformar o episódio em curiosidade histórica: seu assunto é o medo, essa ditadura particular que pode sobreviver à outra.
Higinio e Rosa estão casados há pouco tempo quando a guerra estoura, em 1936. Ele sabe que seu passado político tornou-se uma sentença quase pronta e, depois de escapar das primeiras investidas dos falangistas, recolhe-se a um buraco improvisado dentro da própria casa. A intenção é ficar escondido por alguns dias, talvez semanas, enquanto o país recobra algum juízo. A Espanha não recobra, Higinio tampouco. Antonio de la Torre faz do protagonista um homem que começa fugindo dos outros e termina cercado por si mesmo, enquanto Belén Cuesta absorve o peso muito mais ingrato de Rosa, a mulher que pode andar pelas ruas, conversar, trabalhar, respirar o ar livre, mas que também foi condenada ao esconderijo. Apenas sua cela não tem paredes.
O medo que atravessa as paredes
Os diretores compreendem que seria inútil tentar encenar três décadas de História como uma sucessão de acontecimentos importantes. O que interessa é justamente o contrário: aquilo que chega deformado àquele homem. Passos na rua, vozes atravessando paredes, conversas interrompidas, notícias que Rosa traz para casa, sons de uma Espanha que muda enquanto Higinio envelhece parado. A câmera, nervosa e móvel no princípio, vai ficando mais quieta à medida que o confinamento transforma-se em rotina, expediente formal que os próprios realizadores assumiram como parte de sua tentativa de obrigar o espectador a sentir a passagem do tempo de dentro da toca. Não se observa apenas um homem escondido; por longos momentos, somos nós que olhamos o mundo pela abertura estreita que lhe restou.
E é nesse território que “A Trincheira Infinita” torna-se bem mais que um drama histórico. Higinio passa a vigiar Rosa com a aflição de quem sabe que ela possui aquilo que ele perdeu, uma vida. Há amor entre os dois, sem dúvida, porém o filme é judicioso ao não santificar esse casamento. O isolamento produz ciúme, ressentimento, desconfiança, pequenas tiranias domésticas. Rosa amadurece à vista do marido, toma decisões que ele jamais poderia tomar e gradativamente deixa de ser a auxiliar do fugitivo para converter-se numa personagem mais complexa que ele. Cuesta percebe isso antes mesmo do roteiro e vai introduzindo mudanças mínimas em sua composição: o modo de olhar, de responder, de sair de um cômodo. De la Torre, por seu turno, vai diminuindo Higinio, quase literalmente, como se a casa estivesse devorando o homem que deveria proteger.
Quando a espera vira condenação
Há momentos em que o filme parece longo demais. É. E provavelmente teria perdido alguma coisa se não fosse. A repetição, os silêncios, a sucessão de dias aparentemente iguais cumprem uma função física, fazendo com que também a plateia sinta vontade de abrir aquela porta e mandar Higinio andar pela rua, correr, ser preso, fazer qualquer coisa, contanto que termine sua interminável espera. Isso não impede que determinadas passagens do segundo ato soem esticadas, nem que algumas mudanças de tempo tenham a aparência de expediente dramático mais calculado do que espontâneo. Mas são pequenas fissuras num trabalho que sabe muito bem aonde pretende chegar.
“A Trincheira Infinita” recebeu em San Sebastián os prêmios de direção e roteiro, distinções coerentes com uma obra que transforma um espaço minúsculo numa paisagem psicológica enorme. Higinio sobrevive, mas a pergunta que Arregi, Garaño e Goenaga deixam espalhada pelo filme é muito mais incômoda: quanto de uma vida ainda pertence a alguém depois que o medo passa a decidir por ele? Há prisões cujas portas podem ficar abertas durante anos. O preso é que já não se lembra do caminho para fora.

