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Relações são quase sempre pautadas por crises, e não é incomum encontrar gente que seja adepta de um súbito gelo a fim de que a chama arda outra vez, com muito mais força. Por baixo de um problema aparentemente banal costuma haver outros, esses, sim, de resolução delicada, e portanto qualquer medida que não contemple mudanças profundas há de ser inócua — e tanto pior se encarada como se o problema não fosse de todos, sem exceção. Os personagens de “Um Estranho Segredo” ainda não passaram por nenhuma grande dificuldade da vida adulta, parecem encarcerados numa torre de marfim, ludibriam-se em patéticos jogos de manipulação e controle, mas acham que podem guardar a polidez na hora em que a lama sobe. Charles Dorfman é perspicaz ao urdir o cenário de desconforto que vai tomando conta do filme depois que todos se reúnem num jantar infesto, e o que terminaria mal acaba em sangue.

Éden maldito

Em se lidando com os sentimentos mais impublicáveis de uma pessoa, tirar do limbo fatos e declarações que não dizem respeito a mais ninguém senão aos envolvidos nesses episódios só o que faz é trazer cizânia — e tragédia. Jovens, belos e bem-sucedidos, Adam e Eva têm tudo a seu favor, mas trocam Londres pela Nova Gaeta, uma comunidade no interior da Inglaterra, e então eventos nada comuns passam a preencher sua rotina, começando por uma raposa que ele vê agonizando enquanto dá sua corrida e misteriosamente vai parar na sua sala. Meticulosos, Dorfman e seu corroteirista, Statten Roeg, elaboram a imagem desse paraíso cheio de potenciais desgraças, anunciandoos demais integrantes do enredo de terror que se desenha. A fera em agonia da introdução é mesmo o sinal de mau agouro que todos imaginamos, e Iwan Rheon, Catalina Sandino Moreno e Tom Cullen levam-no o sério.


Filme: Um Estranho Segredo
Diretor: Charles Dorfman
Ano: 2021
Gênero: Suspense/Terror
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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