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Ser negro nos Estados Unidos continua difícil, mas os fantasmas do preconceito já foram bem mais tangíveis e muito mais assustadores. Ostentar na pele a cor errada poderia significar entre viver na plenitude de seus direitos civis ou pagar com a liberdade ou a morte pelos crimes que não ficavam bem para brancos, uma das premissas de que Norman Jewison (1926-2024) extrai todo o sumo de lúgubre poesia no arrebatador “Hurricane — O Furacão”. Transcorrida a primeira parte, Jewison apresenta o que fica de um Rubin Carter (1937-2014) nadando contra a corrente de intolerância e racismo que o esfalfou e o levou ao sistema carcerário por quase duas décadas, entre junho de 1966 e novembro de 1985, condenado injustamente por triplo homicídio. Seria reconfortante imaginar que policiais raivosos e corruptos são os grandes vilões aqui, mas o diretor faz um brilhante retrospecto da questão racial americana, chegando a uma conclusão bastante conhecida.

O peso da injustiça

Em geral, americanos se saem muito bem ao usar o cinema para tratar de suas fragilidades. O roteiro de Armyan Bernstein e Dan Gordon volta a “The 16th Round: From Number 1 Contender to Number 45472” (“o 16º round: de desafiante número 1 a prisioneiro número 45472”, em tradução livre; 1974), a autobiografia de Carter, pugilista que subiu ao ringue por quarenta vezes, ganhou 27 lutas e foi obrigado a ver seu sonho morrer de um jeito melancólico e brutal no ponto alto da carreira. Jewison ilustra essa jornada desditosa mirando um episódio da infância do protagonista, que foge do assédio de um pedófilo desferindo-lhe golpes de canivete e é sentenciado a uma pena de dez anos num reformatório, até fazer 21. O inquérito registrava que o garoto queria roubar o relógio do sujeito.

Dinâmicas, às vezes excessivamente ágeis, essas cenas situam o espectador e fazem-no admitir que Carter seja um homem marcado, sensação que recrudesce quando Vincent DeSimone (1918-1979) atravessa seu caminho. Chefe dos detetives do Condado de Passaic, Nova Jersey, DeSimone — rebatizado por Bernstein e Gordon como Vincent Della Pesca para minimizar o risco de eventuais processos — foi designado para investigar o tiroteio na taverna Lafayette Grill, em Paterson, e não sossegou até incriminar Carter e seu amigo John Artis (1946-2021). Ao costurar esse torvelinho de subtramas e seus personagens, Denzel Washington faz por merecer a indicação ao Oscar de Melhor Ator e mantém “Hurricane — O Furacão” como um filme necessário, uma reflexão nada piegas sobre a esperança, a única a sobrar depois que o caos reina.


Filme: Hurricane - O Furacão
Diretor: Norman Jewison
Ano: 1999
Gênero: Biografia/Drama
Avaliação: 5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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