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Em plena Idade Média, Gawain (Dev Patel) deixa a corte do rei Arthur para cumprir uma promessa que pode lhe custar a vida e definir sua reputação. Dirigido por David Lowery, “A Lenda do Cavaleiro Verde” adapta o poema arturiano do século 14 com uma fantasia sombria, paciente e bastante humana. Em vez de apresentar um cavaleiro experiente, o filme acompanha um rapaz inseguro, vaidoso e ansioso por conquistar uma história digna de ser contada.

Gawain é sobrinho do rei Arthur (Sean Harris), mas ainda não realizou nada que lhe garanta respeito entre os homens da Távola Redonda. Ele passa os dias bebendo e visitando Essel (Alicia Vikander), uma jovem de origem humilde com quem mantém um relacionamento. Sua proximidade com a família real lhe oferece conforto, porém também ressalta uma situação constrangedora. Todos ao redor parecem possuir aventuras memoráveis, enquanto ele continua dependendo do sobrenome.

Durante uma celebração de Natal em Camelot, Arthur convida o sobrinho a sentar-se ao seu lado. Gawain admite que não tem uma história para contar. A resposta ganha novo peso quando o Cavaleiro Verde (Ralph Ineson), uma criatura gigantesca com aparência de árvore, invade o salão e propõe um jogo aos presentes.

Qualquer cavaleiro poderá golpeá-lo e ficar com seu machado. Em troca, deverá procurá-lo na Capela Verde um ano depois e receber o mesmo golpe. Gawain aceita a proposta, pois enxerga nela a chance de conquistar prestígio diante do tio. O problema está na violência de sua escolha. Em vez de aplicar um ferimento pequeno, ele corta a cabeça do visitante.

A vitória dura poucos segundos. O Cavaleiro Verde levanta-se, recolhe a própria cabeça e lembra que estará esperando por Gawain no Natal seguinte. O salão fica em silêncio, e o jovem descobre que seu primeiro grande feito também pode ser o último.

A fama vem antes da coragem

Durante um ano, Gawain desfruta da atenção despertada pelo episódio. Sua história circula por Camelot, seu nome ganha importância e a corte passa a tratá-lo com admiração. O prestígio, contudo, depende do cumprimento do acordo. Quando a data se aproxima, Arthur recorda que uma promessa feita por um futuro cavaleiro precisa ser honrada.

Antes da partida, a mãe de Gawain (Sarita Choudhury) entrega ao filho um cinturão verde. Ela afirma que o objeto poderá protegê-lo de qualquer ferimento. Essel acompanha os preparativos com preocupação, pois sabe que a busca por reconhecimento poderá afastá-lo para sempre. Gawain deseja ser lembrado como um homem valente, embora ainda não tenha certeza de que aceita o preço dessa fama.

Munido do machado, do cinturão e de algumas provisões, ele deixa Camelot em busca da Capela Verde. A viagem deveria confirmar seu valor, mas logo revela a fragilidade escondida sob a roupa de cavaleiro. Longe do castelo, o parentesco com Arthur vale pouco. A floresta não se curva diante de títulos, e os desconhecidos da estrada estão mais interessados em seus pertences do que em sua linhagem.

Uma viagem cheia de perdas

Perto de um antigo campo de batalha, Gawain cruza com um jovem saqueador interpretado por Barry Keoghan. O rapaz fornece informações sobre o caminho e espera receber uma recompensa. Gawain oferece pouco, demonstra impaciência e segue adiante. A aparente ajuda logo se transforma numa armadilha, e ele perde o cavalo, o machado e boa parte dos recursos que carregava.

A cena desmonta a imagem heroica construída em Camelot. Gawain sequer chega a enfrentar um grande guerreiro. Basta um grupo de ladrões para deixá-lo amarrado no chão, sem meios para prosseguir. Existe até certa ironia nessa queda. O homem que sonhava entrar para as lendas quase encerra sua aventura nas mãos de criminosos interessados em botas e moedas.

Depois de escapar, ele chega a uma casa abandonada e conhece Winifred (Erin Kellyman), o espírito de uma jovem assassinada. Ela pede que Gawain recupere sua cabeça, perdida no fundo de um lago. Ele questiona o que receberá pelo serviço, uma reação pouco nobre para alguém empenhado em provar bondade e honra. Ainda assim, atende ao pedido e recupera também um recurso essencial para continuar a viagem.

A estrada apresenta outros sinais de um mundo maior do que Camelot. Gawain observa gigantes atravessando a paisagem, procura abrigo em regiões desertas e passa a viajar ao lado de uma raposa. Esses episódios não existem apenas para encher a aventura de criaturas fantásticas. Cada encontro revela o quanto ele depende de proteção, alimento e orientação, apesar da imagem corajosa que tenta preservar.

O castelo perto da capela

Quando já está próximo do destino, Gawain recebe abrigo na propriedade de um lorde interpretado por Joel Edgerton. O anfitrião oferece comida, repouso e informações sobre a Capela Verde. Em troca, propõe um acordo peculiar. Tudo o que ele conseguir durante uma caçada deverá ser entregue ao visitante, enquanto Gawain deverá lhe oferecer aquilo que receber dentro da casa.

A esposa do lorde, também interpretada por Alicia Vikander, tem a mesma aparência de Essel, mas ocupa uma condição social muito diferente. Inteligente e provocadora, ela percebe as inseguranças do hóspede e questiona sua sede por fama. A dama também reconhece o cinturão verde e sabe que Gawain deposita no objeto a esperança de sobreviver ao encontro marcado.

Lowery usa o castelo para aproximar o protagonista de sua escolha mais difícil. Gawain recebe conforto quando deveria preparar-se para morrer, encontra desejo quando precisa conservar a palavra e ganha a possibilidade de proteção quando deveria confiar na própria coragem. O prazo continua correndo, e cada noite naquela propriedade deixa a Capela Verde mais próxima.

Uma fantasia sobre medo e honra

“A Lenda do Cavaleiro Verde” possui fantasmas, gigantes, magia e uma criatura capaz de caminhar com a cabeça nas mãos. Mesmo cercado por elementos grandiosos, o enredo permanece ligado a um medo bastante comum. Gawain deseja reconhecimento, mas gostaria de recebê-lo sem sofrer, perder privilégios ou colocar a vida em perigo. Dev Patel trabalha essa contradição com sensibilidade, mantendo o personagem entre a arrogância e o pânico.

A interpretação também impede que Gawain vire um herói convencional. Ele erra, demonstra egoísmo, mente e procura saídas que preservem sua reputação. Ainda assim, existe algo comovente em sua tentativa de chegar à capela. O rapaz sabe que pode fugir, porém também sabe que voltaria a Camelot carregando uma covardia impossível de esconder.

David Lowery escolhe um ritmo contemplativo e deixa a ameaça crescer durante a caminhada. Florestas fechadas, corredores escuros e longos períodos de silêncio tornam o tempo uma presença incômoda. A fotografia de Andrew Droz Palermo cobre a paisagem com tons verdes, amarelos e vermelhos, enquanto a música de Daniel Hart mantém a sensação de que o mundo ao redor de Gawain pertence tanto à história quanto ao sonho.

Esse ritmo pode frustrar quem espera batalhas frequentes ou uma aventura medieval movimentada. Há pouca ação no sentido tradicional, e o filme prefere acompanhar hesitações, perdas e escolhas. A recompensa está na forma sensível com que transforma uma antiga lenda numa história sobre um jovem obrigado a decidir que homem deseja ser.

Ao chegar à Capela Verde, Gawain já perdeu a segurança oferecida pela corte e conhece melhor o peso de sua promessa. O Cavaleiro Verde permanece à espera, pronto para cobrar o golpe combinado um ano antes. Tudo o que resta ao viajante é escolher se preservará apenas a vida ou também a palavra que o levou até ali.


Filme: A Lenda do Cavaleiro Verde
Diretor: David Lowery
Ano: 2021
Gênero: Aventura/Drama/Fantasia
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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