A natureza não odeia ninguém. Não pune, não persegue, não se vinga, não guarda rancores nem escolhe suas vítimas, e talvez seja precisamente isso que exista de mais aterrador nela. Uma montanha pode permanecer imóvel durante séculos, majestosamente entregue ao frio, à chuva e ao vento, até que alguns milhões de toneladas de pedra resolvam obedecer à gravidade e descer. Em “A Onda”, Roar Uthaug transforma essa indiferença mineral numa ameaça muito mais convincente que os monstros de quase todo o cinema-catástrofe, porque em Geiranger ninguém precisa imaginar o perigo: ele está ali, acima das casas, dos hotéis, dos automóveis e dos turistas que fotografam um dos mais belos fiordes da Noruega. A instabilidade de Åkerneset é real, assim como a possibilidade de um grande deslizamento produzir uma onda devastadora; essa mistura de beleza e sentença suspensa dá ao filme um desconforto que nenhuma nave alienígena conseguiria reproduzir.
Kristian Eikjord conhece aquela montanha melhor que quase todo mundo e, por uma dessas ironias de que a vida gosta, está abandonando-a. O geólogo interpretado por Kristoffer Joner aceitou um novo emprego e prepara-se para deixar Geiranger com a esposa, Idun, e os filhos, Sondre e Julia, rumo a outra vida, em Stavanger. No último dia de trabalho, porém, alguns instrumentos começam a fornecer leituras estranhas. Cabos rompem-se, a água subterrânea desaparece, sensores parecem enlouquecer. Poderia ser nada, e todos gostariam muito que fosse nada. Kristian não consegue. O roteiro de John Kåre Raake e Harald Rosenløw Eeg encontra aí um belo modo de instaurar a tensão: o herói sabe demais para continuar tranquilo, mas ainda sabe de menos para convencer os outros.
A Onda na Netflix: dez minutos para escapar
Uthaug leva um bom tempo antes de fazer a montanha cair, e acerta. O cinema de sobrevivência costuma ganhar força quando primeiro nos convence de que aquelas vidas ordinárias realmente existem, como se observa em narrativas que preferem a agonia de gente comum à exibição contínua do espetáculo. Kristian é um marido um pouco distraído, um pai sem vocação alguma para super-herói, um profissional que não consegue desligar a cabeça justamente quando deveria esquecer o serviço e entrar no carro. Idun, vivida com admirável secura por Ane Dahl Torp, conserva algo ainda mais interessante: a impressão de que já está cansada daquela mudança antes mesmo de ela acontecer. Entre os dois há afeto, mas não aquela felicidade plastificada indispensável aos grandes melodramas americanos que precisam destruir uma família perfeita para depois remontá-la.
A burocracia também ajuda. Ninguém quer apertar o botão vermelho cedo demais e evacuar uma região tomada por turistas em plena temporada, e essa hesitação talvez seja ainda mais assustadora que a própria onda. Quando finalmente as sirenes começam a tocar, o filme muda de natureza. Restam cerca de dez minutos entre o deslizamento e a chegada da água a Geiranger, premissa que Uthaug converte numa contagem regressiva sem precisar esfregar relógios na tela a cada trinta segundos.
É quando “A Onda” poderia transformar-se numa versão norueguesa de “2012” ou “O Dia Depois de Amanhã”, com pontes voando, carros rodopiando e figurantes fugindo diante de uma parede digital. Uthaug resiste. O diretor declarou que pretendia aproximar o gênero hollywoodiano de sua própria realidade, privilegiando uma família e uma comunidade pequena, e a escolha aparece até na câmera, muitas vezes inquieta, quase documental. A grande sequência da onda tem a espetacularidade necessária, mas termina rápido. O terror verdadeiro começa depois, entre água escura, corredores inundados, destroços, gente procurando gente e aquela dúvida infantil e intolerável acerca de quem conseguiu chegar ao alto.
Quando o desastre deixa de ser espetáculo
Joner faz Kristian crescer sem transformá-lo num brucutu. Há medo em seu rosto, exaustão, desorientação, e sua inteligência profissional serve menos como superpoder que como uma maldição: ele compreende exatamente o que está acontecendo. Ane Dahl Torp, por seu turno, impede que Idun seja reduzida à esposa esperando o marido salvá-la. Quando os dois núcleos familiares se separam, Uthaug distribui o peso dramático com bastante justiça, e por algum tempo não se sabe sequer quem protagoniza o filme. Jonas Hoff Oftebro, como Sondre, recebe o conhecido fardo de encarnar o adolescente voluntarioso que toma a decisão errada na pior hora possível, mas o clichê funciona porque aqui os erros custam caro. Edith Haagenrud-Sande faz de Julia o outro extremo, uma criança para quem o apocalipse continua sendo, antes de tudo, o medo de perder os pais. O elenco principal foi construído justamente em torno desses quatro personagens.
Há excessos no último movimento, quando o roteiro se rende um pouco mais às convenções do gênero e Kristian passa a resistir ao impossível com uma disposição física que a história até então fizera questão de evitar. Nada que afunde o conjunto. A força de “A Onda” está em compreender que o desastre não precisa ocupar duas horas para justificar um filme de desastre. A água demora segundos para destruir o que aqueles homens levaram décadas para levantar, e Uthaug concentra-se no que sobra.
Pode-se monitorar a montanha, instalar sensores, calcular volumes, medir fissuras, construir estradas e traçar rotas de evacuação. É razoável fazê-lo, claro. O erro começa quando essa competência nos persuade de que a natureza foi enfim domesticada. Em “A Onda”, ela espera em silêncio, bela como um cartão-postal. E então se mexe.

