Em 1946, a escritora Juliet Ashton (Lily James) deixa Londres e viaja até a ilha de Guernsey para conhecer um clube de leitura criado durante a ocupação nazista. Seu interesse nasceu de uma carta enviada por Dawsey Adams (Michiel Huisman), um fazendeiro que encontrou um livro que pertenceu a ela. O que parecia um bom assunto para uma matéria ganha outra dimensão quando Juliet conhece os moradores e percebe a dificuldade deles em falar sobre a guerra. Esse encontro sustenta “A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata”, romance de 2018 dirigido por Mike Newell.
Juliet vive um período de sucesso profissional, mas ainda procura um assunto que desperte sua vontade de escrever. Dawsey oferece isso sem qualquer intenção de impressioná-la. Ele entra em contato porque deseja conseguir outras obras de Charles Lamb, autor que descobriu naquele exemplar usado. A conversa por correspondência desperta o interesse da escritora pelo nome curioso do clube e pelas pessoas que participam dele. Antes de fazer as malas, ela já tem perguntas demais para caber em outra carta.
Uma desculpa que virou clube
A origem da associação remonta à ocupação alemã. Surpreendidos por soldados depois do toque de recolher, alguns moradores alegam que estavam voltando de uma reunião literária. Elizabeth McKenna (Jessica Brown Findlay) participa da invenção que livra os amigos de serem presos naquele momento. O nome inclui uma torta de casca de batata, preparada em tempos de escassez. É uma escolha pouco convidativa para um cardápio, mas bastante memorável para um clube.
Depois do susto, os encontros passam a acontecer de verdade. Pessoas com hábitos e temperamentos diferentes descobrem nos livros uma razão para continuar se reunindo. Entre uma leitura e outra, conseguem conversar e preservar algum convívio durante a ocupação. Newell acerta ao dar espaço a essa rotina doméstica. A guerra chega às casas, interfere na comida e determina até o horário de andar na rua. A necessidade de inventar uma justificativa para voltar de um jantar revela quanto os moradores perderam o controle da própria vida.
Quando Juliet chega, os alemães já foram embora, mas os amigos continuam ligados pelo que viveram. A escritora leva consigo a animação de quem descobriu uma boa história. Os habitantes carregam lembranças que não estão necessariamente dispostos a compartilhar. Essa diferença entre a curiosidade da visitante e o sofrimento de seus anfitriões dá ao encontro um desconforto necessário.
Nem todos querem contar
Isola Pribby (Katherine Parkinson) acolhe Juliet com entusiasmo. Eben Ramsey (Tom Courtenay) também contribui para a atmosfera afetuosa das reuniões. Amelia Maugery (Penelope Wilton), porém, reage mal quando a escritora pede autorização para publicar uma matéria sobre o grupo. A recepção calorosa tinha levado Juliet a esperar uma resposta favorável. A recusa interrompe seus planos e a obriga a considerar que simpatia não equivale a consentimento.
Wilton oferece uma das interpretações mais interessantes do elenco. Amelia tem uma dureza que incomoda a visitante, mas sua resistência merece atenção. Juliet pode voltar a Londres com um texto publicado. Os moradores continuarão ali, convivendo com as pessoas e as perdas que essa publicação poderá expor. A atriz sustenta essa diferença sem transformar sua personagem em alguém que existe apenas para dificultar a pesquisa.
Elizabeth, uma das fundadoras, está ausente. Sua filha pequena, Kit (Florence Keen), recebe os cuidados dos amigos, sobretudo de Dawsey. Juliet passa a fazer perguntas sobre a mãe da menina e percebe que esse assunto altera o tom das conversas. Há informações que ela ainda desconhece e sentimentos que os moradores têm dificuldade de expressar. A escritora decide prolongar a estadia e pesquisar a ocupação, aproximando-se de uma história mais dolorosa do que imaginava.
O romance cresce na convivência
Dawsey ocupa cada vez mais espaço nos dias de Juliet. Michiel Huisman interpreta o fazendeiro com reserva, sem fazer dele um homem empenhado em seduzir a recém-chegada. A atenção que dedica a Kit e aos amigos ajuda a explicar o interesse da escritora. A atração nasce dessa convivência, embora as possibilidades amorosas sejam anunciadas cedo o bastante para que pouca gente se surpreenda com elas.
Em Londres, Juliet mantém uma relação com o americano Mark Reynolds (Glen Powell), que lhe propõe casamento antes da viagem. Seu editor e amigo, Sidney Stark (Matthew Goode), também faz parte da vida que ela deixou por alguns dias. A permanência em Guernsey passa a interferir nesses compromissos. Conhecer Dawsey e os demais integrantes desperta desejos que não estavam previstos quando ela embarcou.
Nesse ponto, Newell recorre a escolhas bastante conhecidas dos romances de época. O contraste entre os pretendentes poderia ter mais nuances, e alguns caminhos recebem sinalização excessiva. Ainda assim, Lily James dá encanto à protagonista sem depender apenas do figurino ou da paisagem. Sua melhor contribuição está na mudança de atitude diante dos moradores. A mulher que chega animada para colher depoimentos precisa aprender a ouvir uma recusa e permanecer perto mesmo quando não recebe a informação desejada.
As ausências pesam nas reuniões
Ao intercalar a visita de Juliet com episódios da ocupação, Newell oferece novas razões para prestar atenção aos silêncios de Amelia e à falta de Elizabeth. A curiosidade sobre o passado sustenta a pesquisa, mas os vínculos entre os moradores têm mais força do que a busca por uma revelação. Kit precisa de cuidados todos os dias. Dawsey e seus amigos assumem essa responsabilidade enquanto lidam com a ausência da mãe.
Há passagens em que a emoção vem acompanhada de explicações excessivamente arrumadas. A delicadeza do romance também suaviza certas arestas de uma experiência brutal. Mesmo assim, as melhores cenas preservam o desconforto de Juliet diante de pessoas que não podem tratar suas lembranças apenas como material de trabalho. Quando James diminui a euforia da personagem e presta atenção aos outros, a aproximação ganha credibilidade.
“A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata” tem afeto por seus personagens, inclusive quando eles discordam ou fecham a porta para uma pergunta. O prazer de acompanhar as reuniões vem dessa intimidade construída aos poucos, com livros, comida e opiniões nem sempre compatíveis. Juliet chega pensando no que poderá escrever sobre aquele grupo. Ao prolongar a visita, passa a comprometer também seu tempo, seus planos e o futuro que imaginava longe da ilha.

