Os anos passam e impingem-nos a lucidez e a necessidade de encontrar no mundo um canto que seja só nosso e de mais ninguém, tendo claro que esse lugar não é um feudo, hereditário e eterno, e nem a própria vida é feliz e plácida — é, muitas vezes, o oposto disso. Organizar o caos interior, amar o seu destino, libertar-se das regras que a sociedade inventa podem ser atalhos para a felicidade, mas são também uma prova de fogo que testa os limites de muita gente, incluindo-se aí Rory MacNeil. Sem querer, esse velho durão também dá suas contribuições à filosofia e por aí vai crescendo “Antes de Partir”, um périplo pela fascinante vida de um rabugento profissional sozinho em sua praia nas Hébridas Exteriores da Escócia. Os israelenses Oded Binnun e Mihal Brezis desvendam as maravilhosas contradições de um personagem buscando alguma forma inconsciente de salvação, ao passo que experimenta prazeres que julgava impossíveis.
Antes de Partir com Brian Cox e a última chance
Um acesso de dores nas costas obriga Rory a deslocar-se até Glasgow para de lá tomar um voo para São Francisco onde tem consulta com um especialista. Antes, o roteiro de Michael McGowan e Michal Lali Kagan, livremente inspirado em “O Sorriso Etrusco” (1985), livro do espanhol José Luis Sampedro (1917-2013), submerge nas zonas obscuras do protagonista, estranhamente animado nas ocasiões em que pode manifestar seu desprezo por Campbell, o vizinho com o qual mantém uma velha rixa. Binnun e Brezis reservam uma cena vigorosa no segundo ato para explicar esse detalhe, depois que Rory já está mais à vontade em seu novo lar provisório e com seus anfitriões, o filho Ian, Emilly, a nora, e Jamie, o neto de alguns meses. Essa relação em particular, a de Rory e Jamie, irriga toda a história, e oferece a Brian Cox o material de que precisa para fisgar o público, instando a torcer por aquela figura agridoce.
Pelo título em português, sabe-se que o final de Rory não é exatamente feliz — em especial depois que se sabe que ele tem um câncer de próstata metastático —, mas os diretores dão um jeito de dar-lhe alguma salvífica esperança. O tal sorriso etrusco, nome original que o filme empresta de Sampedro, é a feição misteriosa de um casal egípcio num sarcófago de terracota do século 9 a.C. exposto no museu que visita empurrando o carrinho de Jamie. Essas descobertas grandiosas somam-se ao resgate de pequenas alegrias, como atrair a atenção de uma bela mulher; como faz com J.J. Feild e Thora Birch no início, Cox entabula uma sequência mais estimulante que a outra com Rosanna Arquette, entre elas a que Rory reconhece-se a si mesmo nas rugas escavadas no rosto de Sêneca (4 a.C.-65 d.C.). Os momentos em que o veterano refestela-se com os gêmeos Elliot e Oliver Aero Kappow, que roubam a cena literalmente vivendo Jamie, são mesmo o coração do filme, e essa história de um homem reavaliando suas escolhas e a implorar (a seu modo, claro) por misericórdia. Ele só queria ter o tempo necessário para que o neto chamasse-o seanair, “avô” em gaélico. Em alguma medida, viver é só isso mesmo.

