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Reproduzir como produto cultural histórias que atravessam os séculos, sem prejuízo do interesse de plateias as mais incompatíveis, nunca é uma decisão fácil. A questão começa a alcançar as raias da insanidade se um filme obstina-se a explicar um tema delicado, hermético até para aqueles que o dominam ou sentem-se intimamente mexidos por ele, sensação que os conflitos no Oriente Médio costumam despertar sem qualquer indulgência. O ciclo de violência e terror dos atentados que dizimam famílias e perpetuam a mitificação doentia de jovens em estado de vulnerabilidade é encarada num misto de crueza e poesia em “Paradise Now”, uma leitura bastante peculiar — e controversa — do clima de invencível mal-estar entre israelenses e palestinos que conduz a saídas tão falsas quanto desumanas. Hany Abu-Assad chega a esse efeito replicando o que vê em seu quintal, com olhos e coração, tudo levado às cenas que o jornal não registra.

Filme Paradise Now e a anatomia do desespero

Said e Khaled estão perdidos. Ambos têm casa, família e um emprego razoável de mecânicos, mas querem ao menos a chance de alguma perspectiva na fronteira com Israel, e ela vem na forma de aliciamento numa organização clandestina que pleiteia a divisão do território em dois Estados. Said parece o mais convicto, como dão a entender Abu-Assad e os corroteiristas Bero Beyer e Pierre Hodgson, atentos às subjetividades da dupla e deixando claro que não querem alimentar estereótipos, começando por enfraquecer a aura do mártir. Nota-se o interesse do diretor de jogar luz sobre detalhes da missão, num esforço de humanizar seus protagonistas sem defendê-los ou amenizar a consequência de suas escolhas, e esse é o caminho pelo qual seguem Kais Nashef e Ali Suliman, abrindo espaço para a perturbadora atuação de Lubna Azabal como Suha, talvez a única pessoa naquele lugar apta a renunciar ao binarismo e dar às coisas seus verdadeiros nomes.

Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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