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Há criminosos que gastam a vida fugindo da polícia e há os que prosperam a tal ponto que começam a parecer banqueiros, aristocratas ou ministros de Estado, só que talvez mais escrupulosos. Guy Ritchie sempre se interessou pelos dois tipos, sobretudo pelos sujeitos que descobriram que a ilegalidade, quando administrada com método, bons ternos e uma contabilidade minimamente organizada, pode adquirir a respeitabilidade de uma empresa familiar. “Magnatas do Crime” marca a volta do diretor ao submundo londrino que o revelou em “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” e “Snatch: Porcos e Diamantes”, depois de passar por Sherlock Holmes, agentes secretos e até pelo reino encantado de “Aladdin”. O retorno lhe faz bem. Ritchie está novamente cercado de patifes eloquentes, gângsteres de maneiras impecáveis, chantagistas, traficantes, pequenos delinquentes convencidos de que ficaram grandes e uma infinidade de homens que podem mandar alguém para o cemitério sem derramar uma gota do uísque.

Mickey Pearson é o mais bem-sucedido entre eles. Americano radicado na Inglaterra, estudante de Oxford que entendeu rapidamente que colegas ricos gostavam de maconha e tinham dinheiro de sobra para comprá-la, ele transforma a descoberta juvenil num império avaliado em centenas de milhões de libras. Matthew McConaughey compõe Pearson como um empresário que por acaso vende uma mercadoria proibida. Fala baixo, veste-se como quem jamais perguntou o preço de coisa alguma e conserva a serenidade de homens que já precisaram resolver problemas muito mais graves que uma fiscalização tributária. Seu erro é imaginar que pode vender o negócio e retirar-se em paz ao lado de Rosalind, a esposa interpretada por Michelle Dockery. No crime, aposentadoria é quase sempre apenas um nome mais simpático para vacância.

A notícia da venda começa a circular e Londres vira uma bolsa de valores para canalhas. Matthew Berger, o milionário americano de Jeremy Strong, oferece-se para comprar o império; Dry Eye, o jovem gângster vivido por Henry Golding, percebe uma chance de subir alguns degraus de uma só vez; Big Dave, editor de tabloide encarnado por Eddie Marsan, tem contas particulares a acertar; e Fletcher entra sorrateiramente pela porta dos fundos. É nesse último que Ritchie encontra o instrumento ideal para brincar consigo mesmo. Hugh Grant aparece desgrenhado, afetado, indiscreto, com a volúpia de um homem que gosta demais de ouvir a própria voz, e passa boa parte do filme sentado diante de Raymond, o braço direito de Mickey, contando-lhe a história que nós mesmos assistimos.

Magnatas do Crime e a arte da chantagem

O expediente poderia transformar “Magnatas do Crime” numa daquelas brincadeiras metalinguísticas que só divertem quem as concebeu, mas Grant e Charlie Hunnam impedem a tragédia. Fletcher diz possuir informações capazes de arruinar Mickey e exige vinte milhões de libras para permanecer calado; Raymond escuta, serve bebida, corrige um detalhe aqui, outro acolá, e Ritchie vai desmontando a narrativa diante do espectador, voltando cenas, alterando perspectivas e lembrando que, naquele ambiente, quem conta uma história também está tentando vender alguma coisa. Fletcher inclusive imagina tudo como roteiro de cinema. Só falta perguntar quem poderia interpretar cada personagem.

Ritchie parece especialmente feliz quando seus criminosos precisam conversar. A violência surge, claro, às vezes bruta e repentina, mas são as negociações que carregam pólvora. Um comentário mal colocado pode valer mais que uma pistola e os homens de “Magnatas do Crime” conhecem aquela regra ancestral segundo a qual respeito é uma moeda cujo valor cresce na proporção direta da capacidade de fazer mal a quem não o demonstra. McConaughey domina esse código com uma elegância quase preguiçosa, embora o filme ganhe mais vida quando se afasta dele. Hugh Grant rouba cenas com desfaçatez, Hunnam faz da fleuma de Raymond um tipo particular de ameaça e Colin Farrell, como o treinador de uma academia de boxe arrastado para a confusão pelos próprios pupilos, consegue a façanha de parecer o único adulto minimamente responsável em meio a uma assembleia de delinquentes.

O velho vício de Guy Ritchie

Há um vício conhecido de Ritchie nessa acumulação de figuras extravagantes, alcunhas, traições, histórias dentro de histórias e reviravoltas que querem provar o tempo inteiro que o diretor continua mais esperto que a plateia. Às vezes ele exagera. Dry Eye recebe menos densidade que sua importância na trama pede, e o humor construído sobre estereótipos raciais, sexuais e sociais envelheceu mais depressa que os ternos de Mickey. Ritchie parece querer recuperar não apenas a energia de seus primeiros filmes, mas também a licença irrestrita que o cinema masculino dos anos 1990 concedia a diretores convencidos de que ofender todo mundo igualmente bastava para tornar qualquer provocação inteligente. Nem sempre basta.

Rosalind serve de correção parcial desse clube do bolinha. Ela não é a mulher do gângster que permanece em casa pedindo ao marido que abandone a vida perigosa; administra sua própria empresa, conhece exatamente o homem com quem se casou e demonstra, quando necessário, que a violência não é monopólio dos cavalheiros. Dockery aproveita cada aparição e faz desejar que Ritchie tivesse lhe dado um pouco mais daquele caos que distribui generosamente aos homens.

Mesmo com os excessos, “Magnatas do Crime” funciona porque Guy Ritchie voltou a fazer aquilo em que sempre foi especialmente bom: colocar sujeitos muito seguros de si numa sala, dar a cada um uma versão diferente da verdade e esperar até que alguém descubra que já perdeu. Mickey quer vender seu império, Fletcher quer vender uma história, Berger quer comprar barato, Dry Eye quer tomar tudo. No fim das contas, talvez o produto mais valioso nunca tenha sido a maconha. Entre esses cavalheiros, informação é o único negócio que não admite aposentadoria.


Filme: Magnatas do Crime
Diretor: Guy Ritchie
Ano: 2020
Gênero: Ação/Comédia
Avaliação: 4/5 1 1
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