O homem inventou o paraquedas para sobreviver à queda e, algum tempo depois, concluiu que apenas sobreviver já não era emoção suficiente. Em “Feras no Limite”, Salvador Calvo se ocupa dessa curiosa espécie de insatisfação humana, que faz alguém subir uma montanha durante horas apenas para saltar dela e descer voando a mais de duzentos quilômetros por hora, envolto num pedaço de tecido e confiando a vida a cálculos, experiência e alguns segundos de lucidez. Inspirado na trajetória de Carlos Suárez, Darío Barrio, Armando del Rey, Álvaro Bultó e Manolo Chana, pioneiros espanhóis do salto BASE com traje de asas, o filme poderia facilmente transformar cinco aventureiros em santos da adrenalina. Felizmente, não faz isso. O roteiro de Alejandro Hernández percebe que coragem e irresponsabilidade muitas vezes moram na mesma casa e talvez usem até a mesma escova de dentes.
Carlos Suárez é o eixo em torno do qual boa parte da história se organiza. Alpinista experiente, ele encontra no wingsuit uma nova maneira de alimentar aquilo que os homens do filme chamam de “a fera”, impulso que não se satisfaz com a lembrança de uma conquista anterior e exige sempre outra parede, outra montanha, outro salto. Carlos Cuevas interpreta Suárez sem transformá-lo num maluco suicida, o que seria o caminho mais fácil. Há nele uma serenidade desconcertante justamente porque esse homem sabe perfeitamente o que pode acontecer. Quando Darío e Armando entram em sua órbita, o filme ganha sua melhor configuração: deixa de ser uma história sobre esporte radical e passa a falar de uma irmandade formada por sujeitos que descobriram um idioma que apenas eles compreendem.
Darío Barrio, o chef conhecido da televisão espanhola vivido por Miguel Ángel Silvestre, parece pertencer a outro universo, mas a distância dura pouco. Armando del Rey, por sua vez, encontra em Miguel Bernardeau um intérprete menos preocupado com a pose de aventureiro, mais atento ao medo que um homem precisa esconder para conseguir saltar. É uma ótima escolha de Calvo. Coragem sem medo não é coragem; é inconsciência. E o diretor filma muitas das sequências aéreas dando ao espectador tempo suficiente para sentir primeiro a sedução daquela liberdade e depois perceber o disparate. Homens lançam-se de paredões, atravessam vales, passam perto demais das rochas, e por alguns segundos compreende-se por que alguém repetiria aquilo. Esse talvez seja o grande triunfo do filme: tornar inteligível uma vontade que, vista de um sofá, parece rigorosamente imbecil.
Feras no Limite entre coragem e irresponsabilidade
Calvo usa ainda depoimentos à maneira de um falso documentário, nos quais os próprios personagens explicam a relação com o risco. O recurso não funciona sempre, sobretudo porque em alguns momentos parece desejar explicar uma coisa que as imagens já disseram com maior eloquência, mas ajuda a romper o encanto quando “Feras no Limite” ameaça transformar-se em propaganda de esporte extremo. As mulheres, esposas e companheiras, cumprem papel mais ingrato. Candela González e Stéphanie Magnin recebem menos espaço que mereciam, embora sejam justamente elas quem trazem para a terra aqueles homens ocupados demais tentando voar. É diante delas que a palavra liberdade começa a revelar uma inconveniente segunda face. Um sujeito pode decidir que sua vida lhe pertence; o problema é sustentar esse raciocínio quando há alguém esperando que ele volte para casa.
Manolo Chana e Álvaro Bultó, interpretados por José Manuel Poga e David Marcé, completam um grupo cuja história torna impossível assistir ao filme apenas como aventura. Chana morreu em 2010, Bultó em 2013 e Barrio em 2014, todos em acidentes associados ao esporte que os havia aproximado. A partir daí, Salvador Calvo toma uma decisão correta e discutível ao mesmo tempo: não explora cadáveres, corpos destruídos ou a violência física dos acidentes. A morte chega por telefones, silêncios, rostos e ausências. É uma contenção digna, mas também retira dessas escolhas uma parte de seu preço. O espectador sabe que a brincadeira mata, mas o filme prefere que ele contemple o vazio deixado por quem morreu a obrigá-lo a encarar a brutalidade do instante em que tudo termina.
O risco deixa de ser espetáculo
E então a vida fez com “Feras no Limite” aquilo que nenhum roteirista sensato teria coragem de escrever. Carlos Suárez, cuja história é encarnada por Cuevas, havia voltado aos saltos durante a produção para homenagear os amigos mortos e participar do filme como especialista. Em 1º de abril de 2025, num salto coletivo realizado a partir de um balão em Toledo, seu paraquedas não abriu. Suárez morreu fazendo exatamente aquilo sobre o que Salvador Calvo estava filmando. Dos cinco homens que alimentaram essa história, Armando del Rey ficou.
Saber disso muda tudo. As paisagens de Espanha e Suíça, magnificadas pela fotografia de Ángel Iguácel; o movimento dos corpos que parecem desafiar a gravidade; a trilha de Roque Baños, que faz a adrenalina crescer sem sufocar a melancolia; até as brincadeiras entre aqueles marmanjos rejuvenescidos pelo perigo passam a carregar uma espécie de sombra. “Feras no Limite” não resolve o dilema que apresenta, e talvez fosse desonesto se tentasse. Não há argumento racional capaz de explicar por que alguém que conhece a morte tão de perto volta a procurá-la no alto de uma montanha. Também não basta chamar esses homens de irresponsáveis e encerrar a conversa. Calvo chega mais longe justamente quando admite que não sabe.
Durante quase duas horas, aqueles sujeitos dizem que querem voar. O filme vai mostrando, aos poucos, que talvez quisessem outra coisa: experimentar, por alguns segundos, uma intensidade que a vida comum não lhes oferecia. Eles encontraram. O problema é que a fera nunca aprende quando está satisfeita.

