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Há fantasmas que voltam para vingar-se, outros porque alguma pendência os mantém presos ao mundo e uns poucos, muito mais inconvenientes, recusam-se a morrer porque ainda estão apaixonados. “A Esposa Fantasma” pertence a essa última categoria. Entretanto, Banjong Pisanthanakun percebe que uma mulher morta no parto esperando o marido regressar da guerra pode render algo mais interessante que duas horas de portas rangendo, cabelos negros sobre o rosto e gente correndo no escuro. O diretor de “Espíritos — A Morte Está ao Seu Lado” (2004) toma uma das histórias sobrenaturais mais conhecidas da Tailândia, a lenda de Mae Nak Phra Khanong. Ele vira-a pelo avesso e descobre ali uma comédia romântica absolutamente amalucada. O risco parecia grande. Deu tão certo que “Pee Mak”, lançado em 2013, quebrou o recorde histórico de bilheteria do cinema tailandês.

Mak foi convocado para a guerra e deixou para trás Nak, grávida e sozinha em Phra Khanong. Ele sobrevive, faz quatro amigos tão valentes quanto estúpidos — Ter, Puak, Shin e Aey — e retorna para casa convencido de que a pior parte da vida ficou no campo de batalha. Nak está lá, belíssima, com o bebê nos braços e uma placidez que, num filme de terror, só poderia significar encrenca.

Mario Maurer e Davika Hoorne assumem os dois polos dessa relação, mas Pisanthanakun não se demora em fingir que existe um grande mistério. O espectador sabe ou logo suspeita da verdade; os moradores também. O único sujeito interessado em sustentar a normalidade é Mak. E sua obstinação amorosa torna-se tanto mais engraçada quanto mais evidentes ficam os sinais de que alguma coisa naquela casa desafia leis razoavelmente consolidadas da natureza.

A premissa vem diretamente da tradição de Mae Nak. Esta lenda foi tantas vezes adaptada para cinema, televisão e teatro que a personagem se tornou praticamente patrimônio da cultura popular tailandesa.

Quando a assombração deixa de ser o problema

Seria muito fácil transformar Nak numa assombração de catálogo. Pisanthanakun prefere algo melhor. Davika Hoorne continua bonita demais mesmo quando deveria meter medo, e essa incongruência alimenta o filme. Não é difícil compreender por que Mak insiste em enxergar naquela criatura a mulher que deixou para trás. Especialmente quando a alternativa é aceitar que voltou tarde demais. Há uma melancolia verdadeira escondida debaixo da palhaçada. Talvez esteja aí o motivo de “A Esposa Fantasma” sobreviver às piadas mais juvenis, às caretas e a um ou outro exagero. Mak não é apenas o marido obtuso que se nega a enxergar o sobrenatural. Ele é um homem que prefere uma impossibilidade confortável a uma realidade que o destruiria.

Os quatro companheiros são responsáveis por implodir qualquer solenidade que ainda pudesse restar. Pongsatorn Jongwilas, Nattapong Chartpong, Wiwat Kongrasri e Kantapat Permpoonpatcharasuk comportam-se como uma trupe de comediantes largada por engano dentro de uma narrativa gótica, berrando, tropeçando, desconfiando uns dos outros e elaborando estratégias tão ruins que às vezes Nak nem precisa fazer nada para apavorá-los. Pisanthanakun já havia trabalhado com esse grupo em histórias de horror anteriores e sabe explorar a química entre eles. A novidade é fazer da covardia uma forma torta de lealdade. Eles querem salvar o amigo. Para isso, precisam convencê-lo de que sua mulher está morta. Essa façanha é consideravelmente mais difícil que sobreviver a uma guerra.

O filme também se diverte em demolir qualquer compromisso mais rígido com a reconstituição histórica. Há penteados improváveis, maneiras contemporâneas de falar, referências deslocadas de seu tempo e uma disposição permanente para fazer troça da própria lenda. A Tailândia antiga de Pisanthanakun não pretende enganar historiador nenhum. Em vez disso, é uma espécie de parque de diversões macabro no qual casas de madeira, rios escuros, templos e cemitérios convivem com um humor deliberadamente moderno. Até uma das imagens indispensáveis da mitologia de Mae Nak — o braço que se alonga de maneira sobrenatural para alcançar um objeto caído — é preservada. No entanto, ela é ao mesmo tempo convertida em brincadeira.

O humor começa a cobrar seu preço

Essa alternância nem sempre sai incólume. No miolo, as fugas, os gritos e as suspeitas começam a girar em falso, como se o diretor gostasse tanto de seus quatro patetas que não soubesse quando mandá-los calar a boca. É justamente aí que o terror perde quase toda a capacidade de amedrontar. Mas talvez seja injusto cobrar medo de um filme que descobre muito cedo outra coisa para fazer com seus mortos. Pisanthanakun está bem menos interessado em saber se fantasmas existem. Ele prefere imaginar o que aconteceria se um homem descobrisse que a mulher que ama é um deles. Depois disso, resolvia pensar sobre isso antes de sair correndo.

Mario Maurer demora a encontrar esse registro. Seu Mak é piegas, crédulo, grudento e às vezes infantil. No entanto, essas características deixam de parecer falhas quando “A Esposa Fantasma” revela onde guardava o coração. Davika Hoorne então cresce, e Nak deixa de ser a ameaça de longos cabelos escuros para assumir a condição mais desconfortável de alguém que perdeu a vida sem perder os desejos que a faziam viver. Afinal, a morte solucionou muito pouco.

Pisanthanakun faz uma escolha incomum para uma velha história sobre uma mulher condenada a permanecer entre os vivos: em vez de perguntar como expulsar o fantasma, pergunta por que seria necessário expulsá-lo. A brincadeira fica séria sem aviso. O ridículo encontra a ternura e Mak compreende que talvez haja coisas piores que dividir a cama com uma morta. Uma delas é dormir sozinho.


Filme: A Esposa Fantasma
Diretor: Banjong Pisanthanakun
Ano: 2013
Gênero: Comédia/Romance/Terror
Avaliação: 4/5 1 1
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