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Thomas Mackelway (Aaron Eckhart) já chega abatido a “Suspeito Zero”. O agente do FBI foi transferido de Dallas para um escritório em Albuquerque depois de usar força excessiva durante a prisão de Raymond Starkey (Keith Campbell), acusado de assassinatos em série. A abordagem irregular permitiu que Starkey fosse libertado, destruiu a credibilidade do investigador e transformou sua nova função numa espécie de castigo administrativo.

No primeiro dia no Novo México, Mackelway recebe o caso de Harold Speck (Kevin Chamberlin), vendedor ambulante achado morto dentro do próprio carro. O cadáver apresenta sinais de violência e traz um símbolo formado por um círculo atravessado por uma linha. Há poucos vestígios utilizáveis, nenhum motivo aparente e quase nada que ligue Speck a outro crime conhecido. Para um agente em busca de reabilitação, o serviço parece uma oportunidade. O problema é que o assassino demonstra conhecer seus movimentos.

Mackelway começa a receber desenhos, mensagens e pistas enviadas por Benjamin O’Ryan (Ben Kingsley), um homem misterioso que sabe demais sobre as vítimas. O’Ryan também parece familiarizado com a rotina do FBI e escolhe o agente como destinatário de suas provocações. A investigação passa a depender de informações fornecidas pelo principal suspeito, situação pouco confortável para qualquer policial e ainda pior para alguém cuja carreira já está por um fio.

Três mortes sem ligação aparente

Outros cadáveres aparecem, mas as vítimas não compartilham profissão, idade ou rotina. Essa ausência de padrão dificulta a definição de uma área de busca e impede que o FBI antecipe quem poderá morrer depois. Mackelway insiste que os casos estão ligados, embora ainda não tenha provas suficientes para convencer seus superiores.

Fran Kulok (Carrie-Anne Moss) entra na investigação para trabalhar ao lado dele. Os dois possuem uma relação anterior e ela conhece os problemas que levaram o colega até Albuquerque. Fran observa os documentos, participa das buscas e acompanha o estado físico de Mackelway, cada vez mais afetado por dores de cabeça, insônia e imagens violentas. Sua função também é impedir que o parceiro confunda intuição com evidência, algo que o roteiro nem sempre permite que ela faça com a firmeza necessária.

Carrie-Anne Moss dá sobriedade à personagem, mas recebe menos espaço do que Aaron Eckhart e Ben Kingsley. Fran deveria ter maior autoridade sobre o caso, pois é a pessoa mais equilibrada entre os investigadores. Muitas vezes, porém, fica encarregada de olhar preocupada para Mackelway enquanto ele mergulha em outra pista perigosa. É pouco para uma agente do FBI e menos ainda para uma atriz que já enfrentou uma realidade simulada inteira em “Matrix”.

Raymond Starkey volta a aparecer entre os nomes relacionados às mortes. Sua presença obriga Mackelway a rever o episódio que provocou sua transferência e dá ao caso uma dimensão pessoal. O agente precisa descobrir se está diante de uma vingança, de uma armadilha ou de uma sequência muito maior. Enquanto ele procura essa ligação, O’Ryan permanece próximo e oferece apenas a quantidade de informação necessária para manter a busca em andamento.

O homem que observa assassinos

Benjamin O’Ryan é a figura mais intrigante de “Suspeito Zero”. Ben Kingsley interpreta o personagem com voz baixa, olhar cansado e uma serenidade que raramente inspira confiança. O homem se comporta como alguém atormentado pelo que conhece, mas também demonstra satisfação ao guiar Mackelway por um caminho escolhido por ele. Suas pistas ajudam o FBI e, ao mesmo tempo, o colocam no centro das suspeitas.

A história apresenta O’Ryan como um ex-integrante de um programa secreto de visão remota. O projeto treinava pessoas para localizar indivíduos e acontecimentos sem contato físico com o lugar observado. A proposta leva “Suspeito Zero” para além da investigação policial convencional e incorpora elementos de terror psicológico. O assassino deixa de ser apenas alguém perseguido por impressões digitais, depoimentos e registros. Ele também passa a existir nas imagens que invadem a mente dos investigadores.

Mackelway sofre fenômenos semelhantes e começa a suspeitar que possui alguma ligação com aquela habilidade. As dores deixam de parecer apenas resultado do estresse e passam a interferir em suas decisões. Ele vê fragmentos que podem indicar lugares, vítimas ou criminosos, mas não dispõe de meios seguros para comprovar o que recebeu. Fran cobra evidências, os superiores esperam resultados e O’Ryan insiste em empurrá-lo para uma busca cada vez mais perigosa.

Essa parte apresenta a melhor ideia do roteiro escrito por Zak Penn e Billy Ray. Um assassino em série pode permanecer desconhecido quando não escolhe um único território, não repete um perfil de vítima e atravessa o país sem chamar atenção. O chamado Suspeito Zero seria o criminoso que mata continuamente sem aparecer nos arquivos oficiais. Para localizá-lo, Mackelway precisa aceitar informações que nenhum relatório do FBI reconheceria como prova.

Uma investigação tomada por imagens

E. Elias Merhige cria uma atmosfera pesada, repleta de desenhos, fotografias, flashes e interrupções bruscas. Esses recursos aproximam o público da confusão vivida por Mackelway, mas também prejudicam a leitura de partes importantes do enredo. Algumas pistas aparecem por poucos segundos, enquanto certas visões retornam tantas vezes que começam a competir com a investigação.

“Suspeito Zero” tem uma premissa inquietante e um trio de atores capaz de sustentar o mistério. Eckhart transmite a irritação e o esgotamento de um agente que perdeu prestígio. Kingsley oferece ao suspeito uma mistura eficiente de sofrimento e ameaça. Moss preserva a racionalidade de Fran mesmo quando o roteiro insiste em mantê-la fora das decisões centrais.

O filme perde força quando esconde informações que poderiam tornar a busca mais envolvente. Em vez de acompanhar cada descoberta com segurança, o espectador precisa separar lembranças, visões e fatos enquanto Mackelway faz o mesmo. A confusão possui relação com o estado mental do personagem, mas nem toda dúvida resulta em suspense. Às vezes, falta apenas uma conversa bem organizada dentro do escritório.

Ainda assim, a investigação conserva interesse porque O’Ryan conhece uma ameaça que o FBI sequer conseguiu registrar. Mackelway precisa descobrir se aquele homem está matando, ajudando ou escolhendo alguém para continuar seu trabalho. Cada mensagem oferece uma nova pista e cobra um preço maior do agente. Ao seguir os sinais deixados pelo suspeito, ele recupera uma possibilidade de salvar sua carreira, embora também entregue a O’Ryan o controle sobre seu próximo destino.


Filme: Suspeito Zero
Diretor: E. Elias Merhige
Ano: 2004
Gênero: Crime/Mistério/Suspense/Terror
Avaliação: 3.5/5 1 1
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