O jogo sempre foi uma maneira especialmente elegante de separar quem pode perder dinheiro de quem pode perder a vida. Em “Corrida dos Bichos”, Fernando Meirelles, Ernesto Solis e Rodrigo Pesavento levam essa lógica ao extremo e transformam o Rio de Janeiro de um futuro próximo numa arena em que ricos bebem, apostam e controlam, enquanto pobres correm. Depois de uma catástrofe ambiental alterar a paisagem carioca, a grande diversão da elite é uma competição na qual os chamados Jogadores comandam os Bichos, homens e mulheres recrutados das camadas mais vulneráveis e lançados às ruas atrás de uma fortuna que quase nenhum deles terá oportunidade de gastar. Mano, interpretado por Matheus Abreu, combate esse sistema até descobrir que Dalva, sua irmã, foi oferecida como garantia numa aposta. Para salvá-la, terá de entrar na máquina que passou a vida tentando quebrar.
A premissa é tão brasileira que chega a causar estranheza ninguém ter feito isso antes. O jogo do bicho, inventado no Rio no fim do século 19 e perpetuado numa curiosa zona cinzenta entre folclore, contravenção, poder econômico e política, vira aqui matéria-prima para uma distopia assumidamente pop. Solis desenvolvia a ideia havia quase vinte anos, interessado justamente em produzir uma ficção científica que não precisasse pedir licença a Los Angeles, Londres ou Tóquio para imaginar o futuro.
O acerto maior está na cidade. A Praia de Botafogo convertida numa extensão de areia sem mar, os corredores mascarados avançando por um Rio reconhecível e ao mesmo tempo mutilado, os salões onde endinheirados acompanham a carnificina diante de mapas e telas, tudo contribui para uma sensação de futuro que não parece tão remoto quanto deveria. Os diretores sabem que uma boa distopia não precisa inventar o mundo; basta exagerar um pouco aquele em que já vivemos.
O Rio do futuro continua muito brasileiro
Mano funciona melhor quando ainda é apenas um rapaz tentando salvar Dalva. Matheus Abreu tem presença física para sustentar as muitas sequências de corrida e confronto, mas o roteiro começa a perder alguma espontaneidade quando o transforma em símbolo de resistência e espera que carregue sozinho uma alegoria social tão grande. O filme quer falar de desigualdade, espetáculo, escravidão econômica, degradação ambiental, meritocracia e da irresistível atração da massa por assistir ao próximo sendo moído diante dela. Quase tudo cabe na premissa. Nem tudo encontra espaço na dramaturgia.
Rodrigo Santoro, como Abu, compreende melhor a natureza daquele universo e traz uma dureza que o filme deveria explorar por mais tempo. Isis Valverde, Bruno Gagliasso, Grazi Massafera, Seu Jorge e um elenco multitudinário ajudam a povoar essa fauna de sobreviventes, proprietários e atravessadores. Já Anitta, transformada numa espécie de mestre de cerimônias da corrida, produz um ruído de outra ordem. Sua presença deveria reforçar a crueldade farsesca daquele espetáculo, mas o tom excessivamente brincalhão diminui a ameaça em momentos que pediam uma ironia mais gelada. A personagem está em toda parte, e justamente por isso a limitação torna-se difícil de ignorar.
Nada disso elimina a ousadia de “Corrida dos Bichos”. Há muitos filmes brasileiros excelentes e poucos com a disposição de imaginar um Brasil do amanhã por meio do espetáculo de ação, dos efeitos visuais, da cultura popular e da ficção científica sem parecer constrangidos por estarem fazendo gênero. Meirelles, Solis e Pesavento erram grande porque decidiram jogar grande, o que já é mais estimulante que acertar pequeno.
Naquele Rio sem mar, os ricos continuam do lado de dentro e os pobres continuam correndo. O futuro inventado pelo filme pode ter máscaras, drones e apostas controladas à distância, mas o mecanismo que põe uns à mesa e outros na pista é velho. Assustador não é imaginar que o mundo de “Corrida dos Bichos” possa chegar. É reconhecer tanta coisa dele antes da largada.

