O amor não redime ninguém por decreto. Pode consolar, adiar o inevitável, inventar desculpas magníficas para erros antigos, mas há uma espécie de romantismo especialmente perigosa em acreditar que duas pessoas apaixonadas tornam-se inocentes só porque conseguem sofrer juntas. David Lowery sabe disso e faz de “Amor Fora da Lei” uma elegia sobre um casal que já perdeu antes mesmo de o filme começar.
Bob Muldoon e Ruth Guthrie são jovens amantes, parceiros no crime e candidatos a uma vida para a qual parecem nunca ter recebido convite. Depois de um confronto armado com a polícia, Ruth atinge o agente Patrick Wheeler, mas Bob assume a culpa e recebe uma longa condenação. Quatro anos depois, ele foge disposto a reencontrar Ruth e conhecer a filha que nasceu durante seu encarceramento. O problema é que o tempo não passou apenas para ele. Ruth construiu uma existência possível, Wheeler aproximou-se dela e Bob volta trazendo consigo não o passado, mas a ameaça de que tudo volte a ser como era. Casey Affleck, Rooney Mara e Ben Foster formam o triângulo sobre o qual Lowery constrói seu filme, selecionado para Sundance em 2013 e posteriormente levado à Semana da Crítica em Cannes.
Há faroestes em que homens atravessam planícies perseguindo fortuna, vingança ou liberdade. Bob atravessa o Texas perseguindo uma lembrança. Casey Affleck compõe o personagem com aquela fala quase engolida, como se todas as palavras tivessem de vencer primeiro uma resistência interior para chegar ao mundo. Bob escreve para Ruth, imagina Ruth, volta por Ruth. Só não percebe que a mulher que deixou grávida e assustada não permaneceu congelada enquanto ele cumpria pena.
Rooney Mara não espera pelo passado
Rooney Mara entende o filme antes dele. Ruth ama Bob, mas não necessariamente deseja outra vez a vida que tinha ao lado dele. É uma diferença pequena na linguagem e brutal na existência. Lowery guarda seus melhores momentos para essa ambiguidade, recusando o expediente fácil de transformar Patrick num rival a ser odiado. Ben Foster dá ao policial uma mansidão melancólica, ainda mais desconcertante porque foi ele quem recebeu o tiro e mesmo assim é o homem menos interessado numa desforra.
O diretor filma essa gente como se estivesse fotografando santos profanos. O próprio Lowery explicou que buscava enquadramentos centralizados, quase iconográficos, aproximando os personagens de imagens religiosas; a austeridade da fotografia faz sentido porque “Amor Fora da Lei” não se ocupa tanto do crime quanto do preço que se paga muito depois dele. As estradas, as casas de madeira, os campos queimados pelo sol e as noites cheias de sombras parecem pertencer a uma América anterior àquela gente, como se Bob e Ruth fossem apenas os últimos representantes de uma velha linhagem de amantes condenados.
É fácil lembrar “Bonnie e Clyde” (1967), mas Lowery retira do casal justamente aquilo que Arthur Penn transformava em mito: o movimento. Ruth está parada; Bob quer voltar; Patrick espera. O conflito nasce dessa diferença de velocidades. O criminoso imagina que escapar da prisão significa recuperar a liberdade, mas talvez sua cadeia verdadeira seja a fidelidade a uma versão de si mesmo que já não existe.
“Amor Fora da Lei” poderia ter sido apenas bonito, e essa seria sua perdição. Há filmes tão enamorados da própria fotografia que deixam os personagens virarem objetos decorativos. Lowery roça esse risco, mas Mara o impede. Ruth tem uma filha nos braços e nenhuma disposição para entregar o futuro a uma memória, por mais apaixonada que ela tenha sido. Bob precisou fugir de uma penitenciária para descobrir que algumas portas permanecem fechadas justamente quando já não há fechadura alguma.

