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Aos quinze anos, qualquer cidade pode parecer uma prisão, e qualquer rapaz vindo de longe, um emissário da liberdade. Não é preciso que o lugar seja particularmente ruim; basta que se conheçam todas as ruas, todas as pessoas, todos os fracassos dos adultos e se tenha a certeza juvenil, tão arrogante quanto necessária, de que a vida verdadeira está acontecendo a duzentos quilômetros dali. Lily e Alison vivem às margens do Salton Sea, na Califórnia, cercadas por trailers, ruas decadentes e famílias de onde parecem ter herdado mais desalento que amparo. Quando encontram um grupo de rapazes de Los Angeles, fugir deixa de ser fantasia. “Asas da Liberdade”, escrito e dirigido por Elgin James, estreou na competição dramática americana de Sundance em 2011 e faz dessa viagem uma história menos sobre escapar que sobre descobrir aquilo de que não se consegue fugir.

Lily, a personagem de Juno Temple, é a força centrífuga da dupla. Bonita, agressiva, desassossegada, ela trata cada limite como uma ofensa pessoal e cada conselho como prova da mediocridade do mundo. Alison, de Kay Panabaker, segue atrás, não porque compartilhe de todos os delírios da amiga, mas porque aos quinze anos a lealdade pode ser uma forma particularmente estúpida de coragem. Uma quer chegar a Los Angeles; a outra quer não perdê-la. Elgin James percebe essa diferença e deixa que ela cresça aos poucos, contaminando a aventura com um desconforto que já estava lá desde o começo.

Antes de Ted Lasso, a ferocidade de Juno Temple

O Salton Sea é mais que cenário. A água e os arredores decadentes parecem anunciar o destino de garotas que cresceram depressa demais e, paradoxalmente, ainda não cresceram o suficiente. Lily olha para Los Angeles como quem contempla uma terra prometida, sem compreender que metrópoles não têm compromisso algum com as esperanças de quem chega. O primeiro contato com os rapazes conserva algo de brincadeira, flerte e excitação, mas a inocência vai sendo cobrada em parcelas cada vez mais altas.

Juno Temple já carregava a qualidade que se tornaria uma de suas marcas, a capacidade de parecer ao mesmo tempo vulnerável e perigosamente disposta a se destruir. Lily pede socorro de uma maneira que adolescentes dominam com perfeição, recusando qualquer pessoa que tente ajudá-la. Temple não busca a simpatia fácil, e por isso sua personagem torna-se tão inquietante. Kay Panabaker precisa trabalhar em registro menos espalhafatoso e talvez faça a tarefa mais ingrata: Alison tem de enxergar antes da amiga aquilo que o espectador também começa a perceber, sem que possa simplesmente abandoná-la.

James conhecia por experiência própria ambientes violentos e juventudes à margem, mas evita transformar as meninas em exemplos sociológicos. Seu filme está mais interessado no modo como uma amizade pode converter-se em uma espécie de pacto, às vezes salvador, às vezes sufocante. Leslie Mann e Kate Bosworth aparecem nesse universo adulto que Lily rejeita, mas adultos estão sempre chegando atrasados em histórias dessa natureza; quando percebem que alguma coisa saiu do lugar, os adolescentes já atravessaram a porta.

“Asas da Liberdade” perde alguma força quando a ameaça se torna explícita e o roteiro parece empenhado em demonstrar que a viagem estava condenada desde a partida. O filme é melhor quando não castiga Lily, apenas observa sua incapacidade de distinguir liberdade de abandono. A adolescência já é cruel o suficiente sem que o cinema precise acrescentar sermões.

No fim, talvez Alison tenha sido a única a entender a viagem. Há lugares dos quais se precisa sair para continuar vivo e outros a que se chega apenas para descobrir que casa não era o pior endereço do mundo. Lily queria asas. O problema é que ninguém lhe explicou que também se cai voando.


Filme: Asas da Liberdade
Diretor: Elgin James
Ano: 2011
Gênero: Drama
Avaliação: 4/5 1 1
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