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Há homens que passam a existência inteira tentando descobrir quem são; Monsieur Oscar parece condenado ao problema oposto, saber quem é depois de ter sido gente demais. Em “Vidas Inventadas”, Leos Carax enfia Denis Lavant numa limusine branca e manda-o percorrer Paris de uma existência para outra, sempre conduzido por Céline, a motorista de Édith Scob. Ao longo de um único dia, Oscar transforma-se em executivo, mendiga, assassino, criatura subterrânea, pai de família, velho moribundo, assumindo cada papel com a gravidade de quem sabe que o espetáculo tem de continuar mesmo quando ninguém consegue localizar plateia, câmera ou diretor. O filme competiu pela Palma de Ouro em Cannes em 2012, onde essa natureza de poema visual e homenagem ao próprio cinema já estava no centro de sua apresentação pública.

Carax não está propriamente interessado em explicar a profissão de Oscar, e qualquer tentativa de organizar os 115 minutos como um quebra-cabeça a ser solucionado termina por empobrecer a brincadeira. O personagem troca de roupa, rosto, idade, postura, voz; Lavant muda junto, como se tivesse sido emprestado por uma companhia de atores que reunisse em um único corpo todos os tipos humanos de que o cinema já se serviu. É nesse excesso que “Vidas Inventadas” deixa de ser uma extravagância hermética para tornar-se um estranho tratado acerca da representação. Oscar não interpreta personagens. Ele desaparece neles.

Denis Lavant desaparece dentro das máscaras

Denis Lavant é um ator de uma fisicalidade quase obscena. Há alguma coisa de animal no modo como ocupa a tela, e Carax conhece essa potência desde “Os Amantes da Pont-Neuf” (1991). Aqui, sua criatura mais perturbadora talvez seja Monsieur Merde, o selvagem que emerge dos subterrâneos parisienses e irrompe numa sessão de fotografias com Eva Mendes, transformando beleza, moda e desejo numa farsa grotesca. Pouco depois, outro Oscar já está em cena, e é justamente essa facilidade com que o filme abandona uma realidade que confere às anteriores um incômodo caráter provisório.

Kylie Minogue aparece mais tarde como Eva Grace, uma mulher que parece conhecer Oscar de alguma vida que os dois já desempenharam, e Carax diminui a temperatura do delírio. Há ternura onde antes havia deformação, silêncio onde sobrava espetáculo. Não é casual que “Vidas Inventadas” se mostre mais tocante justamente quando seus personagens falam como gente comum. O diretor, que até então vinha brincando com a hipótese de que tudo seja cinema, sugere algo ainda mais inconveniente: talvez a vida cotidiana também não passe de um papel que repetimos por costume.

A fotografia de Caroline Champetier torna Paris menos uma cidade que um imenso bastidor. Túneis, cemitérios, mansões, ruas e interiores de automóveis são estações pelas quais Oscar precisa passar antes da próxima metamorfose. Não há segurança em lugar algum, nem quando ele supostamente volta para casa. O filme poderia ter soçobrado sob o peso dessa autoconfiança, porque Carax sabe que está fazendo algo excêntrico e às vezes parece gostar demais de ser visto fazendo-o. Ocorre que Lavant impede a vaidade de assumir o comando. A cada novo personagem, ele restitui humanidade ao experimento.

No fundo, “Vidas Inventadas” é menos sobre as muitas pessoas que Oscar consegue ser que sobre o desaparecimento daquele que seria o verdadeiro Oscar. Depois de tantas máscaras, talvez já não exista um rosto original a recuperar. Céline continua dirigindo, a limusine segue esperando e outro compromisso há de aparecer no dia seguinte. O homem cansa. O ator também. O cinema, felizmente, ainda não.


Filme: Vidas Inventadas
Diretor: Leos Carax
Ano: 2012
Gênero: Drama/Fantasia
Avaliação: 4.5/5 1 1
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