O crime cobra juros. Pode conceder ao homem dinheiro, respeito, aquela forma particular de poder que nasce do medo dos outros e até a ilusão de que, uma vez atingido o topo, será possível descer pela escada dos fundos, trocar de roupa e retomar uma vida normal. Nando demorou cinco temporadas de “Sintonia” para descobrir que essa contabilidade nunca fecha. Em “Nando Entre Dois Mundos — Um Filme Sintonia”, Johnny Araújo encontra o personagem de Christian Malheiros cinco anos depois, vivendo na Sérvia, fisicamente distante do império que construiu e ainda assim preso a ele. Quando Bruninha, agora adolescente, desaparece, não existe avião rápido o bastante para encurtar a verdadeira distância entre esse pai e a filha.
É uma escolha inteligente fazer do último capítulo de Nando menos uma história sobre traficantes que uma história sobre paternidade. O sujeito que aprendeu a antecipar movimentos de inimigos, negociar com homens perigosos e sobreviver num ambiente em que um erro custa a vida percebe-se desarmado diante da própria casa. Scheyla saiu da prisão carregando marcas que a liberdade não apaga, Bruninha cresceu praticamente sem ele e o reencontro familiar não tem nada da apoteose que Nando talvez imaginasse. Júlia Yamaguchi dá a Scheyla aquela aspereza de quem já não dispõe de energia para admirar arrependimentos tardios, enquanto Duda Pimenta encontra na filha uma mistura muito mais difícil, raiva e saudade funcionando concomitantemente. O pai ausente sempre conta com a vantagem injusta de ainda poder ser amado.
Quando o poder chega dentro de casa
Johnny Araújo resiste durante boa parte do longa à tentação de transformar Nando num mártir. Isso é fundamental. Há uma diferença considerável entre compreender por que um homem tornou-se criminoso e absolvê-lo, e o filme ganha força justamente quando lembra que cada degrau da ascensão de Nando correspondeu a alguma perda de quem ficou embaixo. Christian Malheiros já não precisa da agitação do rapaz das primeiras temporadas. Seu Nando está mais quieto, mede o ambiente antes de agir e carrega no rosto uma espécie de exaustão que se torna mais eloquente que qualquer declaração de culpa. Quando o perigo volta a rondar Scheyla e Bruninha, o antigo instinto reaparece, mas agora há algo diferente: pela primeira vez ele entende que proteger a família talvez exija não vencer uma guerra, e sim deixar de travá-la.
Rita e Doni, novamente interpretados por Bruna Mascarenhas e Jottapê, surgem como lembrança daquilo que “Sintonia” sempre teve de melhor, três garotos que partiram do mesmo lugar e descobriram caminhos radicalmente diversos. Suas participações não precisam sequestrar a trama. Nando está sozinho porque sua história exige essa solidão. A amizade que antes diluía um pouco o peso das escolhas já não pode servir de esconderijo.
Há momentos em que o longa se aproxima demais do mecanismo previsível das despedidas de franquia, distribuindo acenos ao espectador que acompanhou a série e deixando personagens antigos atravessarem o quadro como fotografias de família. Araújo, contudo, sabe para onde quer levar seu protagonista. O título parece sugerir um homem dividido entre dois universos igualmente possíveis. Não é isso. Um deles já ruiu há muito tempo. A verdadeira questão é saber se Nando ainda consegue chegar ao outro antes que a porta se feche. Malheiros entende essa diferença, e é por isso que seu personagem finalmente parece menos poderoso justamente quando começa a se tornar livre.

