A cozinha profissional talvez seja um dos poucos lugares civilizados em que gritar, suar, praguejar, manejar facas enormes e reduzir animais a pedaços pode ser entendido como sinal de competência. Pedro Dantas vive à vontade nesse universo de precisão e violência domesticada, perseguindo o instante em que deixará de preparar pratos para o sucesso dos outros e poderá, afinal, chamar alguma coisa de sua. “Caramelo”, de Diego Freitas, começa perto dessa ambição e logo trata de sabotá-la, primeiro com um cachorro esfomeado, depois com uma notícia de natureza muito menos engraçada. Rafael Vitti encarna um homem que tem pressa justamente quando a vida lhe comunica que o relógio resolveu mudar de ritmo.
O vira-lata do título chega sem cerimônia, depois de ter sido abandonado e de experimentar a educação sentimental oferecida pelas ruas. Ele invade o restaurante onde Pedro trabalha, espalha o caos e, como todo cão verdadeiramente talentoso, consegue transformar uma ocorrência sanitária num encontro decisivo. Freitas sabe que não precisa explicar ao brasileiro o que é um caramelo. Ele está nas calçadas, em postos de gasolina, oficinas, estacionamentos, chácaras e portões de casas onde ninguém sabe ao certo quando apareceu; pertence a todo mundo e a ninguém, um animal que a seleção natural e a informalidade nacional parecem ter produzido em parceria. Amendoim, o cão que ocupa a tela, carrega essa familiaridade pronta, e o filme dispõe de uma vantagem afetiva antes mesmo de começar a merecê-la.
Pedro recebe o diagnóstico de um glioma cerebral resistente ao tratamento, e a história muda de temperatura. O restaurante, a obsessão profissional e aquela antiga fantasia de que o êxito está sempre a uma promoção de distância perdem tamanho diante da possibilidade concreta de não haver um futuro tão comprido quanto ele imaginava. É nesse terreno perigoso que “Caramelo” poderia converter-se num melodrama de chantagem emocional, daqueles que colocam doença, cachorro e música triste na mesma cena e aguardam que a plateia faça sua parte com os lenços. Freitas chega perto disso mais de uma vez, mas Rafael Vitti segura o excesso pela maneira como mantém em Pedro uma irritação muito humana. Ele não se torna santo porque adoeceu; continua orgulhoso, impaciente, desagradável quando quer, e isso salva o personagem da canonização.
Quando Amendoim deixa de ser acaso
Camila, de Arianne Botelho, ajuda a afastar a história da relação exclusiva entre homem e animal, introduzindo outra modalidade de afeto, menos automática e bem mais arriscada. Paola Carosella participa da brincadeira autorreferente, e o restaurante continua funcionando como lembrete da vida que Pedro havia planejado enquanto outra, imprevisível, vai se instalando. Freitas nunca consegue escapar inteiramente das convenções dos dramas caninos, longa linhagem que vai de Lassie aos choros copiosos de “Marley & Eu”, porém encontra uma chave particularmente brasileira para seu sentimentalismo. Aqui não existe cão de pedigree esperando o herói numa casa de subúrbio; existe um vira-lata que atravessou a rua porque estava com fome e acabou mudando o destino de um sujeito que acreditava dominar tudo.
Talvez por isso o fenômeno tenha ultrapassado as fronteiras que produções brasileiras raramente conseguem atravessar. A Netflix informou que “Caramelo” superou 50 milhões de visualizações em menos de três meses e tornou-se seu título brasileiro de maior sucesso global. O número impressiona, mas é menos misterioso quando se observa a engenharia emocional do filme: comida, doença, família, romance, recomeço e um cachorro que parece ter saído da esquina da casa de qualquer espectador.
O longa sabe perfeitamente onde apertar e, às vezes, aperta demais. Assim mesmo, Amendoim resiste a todo artifício e continua sendo apenas um cachorro, o que talvez seja seu maior talento. Pedro passa o filme aprendendo algo que nenhum chef gosta de ouvir: há pratos que não saem como imaginamos, ainda que tenhamos seguido a receita. A vida, felizmente, nunca frequentou escola de gastronomia.

