Envelhecer é descobrir, entre outras pequenas crueldades, que aquilo que um dia fizemos com naturalidade passa a exigir algum cálculo, um aquecimento, duas aspirinas e, dependendo da aventura, a autorização de um cardiologista. A comédia conhece esse mecanismo desde antes de Hollywood aprender a falar, mas existe uma perversidade especial quando quem envelhece é um personagem cuja graça dependia justamente da imprudência. Happy Gilmore ganhou o mundo em 1996 esmurrando adversários, quebrando tacos e tratando o golfe, esporte concebido para cavalheiros de calças bem-passadas, como se fosse uma briga de bar. Quase trinta anos depois, “Um Maluco no Golfe 2” devolve Adam Sandler ao campo, agora sem a vantagem decisiva da juventude e com uma vida que já lhe cobrou contas mais pesadas que qualquer torneio. Kyle Newacheck sabe que o espectador veio pela nostalgia e não se faz de rogado: entrega-a em porções industriais.
Happy está viúvo, arruinado e afastado do golfe depois de uma tragédia grotesca envolvendo Virginia, a esposa interpretada por Julie Bowen, e uma bola disparada por ele próprio. A piada é de um mau gosto deliberado, coerente com a genealogia do personagem, mas serve também para que o roteiro de Sandler e Tim Herlihy retire de cena o sujeito invencível do primeiro longa. Há cinco filhos para sustentar, álcool demais circulando por aquele corpo já cansado e Vienna, a caçula vivida por Sunny Sandler, desejando estudar balé em Paris. O pai então volta ao único lugar onde sabe ganhar dinheiro sem fingir ser outra pessoa. Se a premissa tem a elegância de um carrinho de golfe descendo uma escadaria, ao menos existe nela uma ideia honesta: às vezes o homem retorna ao que jurou abandonar não porque tenha feito as pazes com o passado, mas porque alguém de quem gosta precisa que ele volte.
A continuação cobra sua dívida com 1996
O problema começa quando Newacheck parece se convencer de que uma continuação só se justifica se cada lembrança do original ganhar sua réplica, seu aceno ou sua participação especial. Christopher McDonald reaparece como Shooter McGavin, Ben Stiller também retorna, Bad Bunny transforma-se numa presença mais engraçada do que seria razoável esperar, e golfistas profissionais desfilam pela história num convescote que por vezes lembra aqueles programas esportivos concebidos para fazer publicidade parecer entretenimento. A saturação poderia matar o filme, e quase mata, não fosse Sandler compreender melhor que seu diretor o que está em jogo. O ator já provou em “Joias Brutas” e “Arremessando Alto” que há muito deixou de ser apenas o marmanjo de voz esganiçada dos anos 1990; aqui, contudo, não despreza essa criatura. Ele a contempla com certa melancolia, talvez porque saiba que Happy Gilmore e Adam Sandler envelheceram juntos.
Quando a nostalgia vira audiência
A entrada de uma nova liga concebida por Frank Manatee, o empresário interpretado por Benny Safdie, dá ao roteiro uma chance de zombar da transformação do esporte em espetáculo de alta rentabilidade, mas a sátira nunca avança o suficiente para ferir quem paga a conta. “Um Maluco no Golfe 2” prefere abraçar o público, repetir bordões, convocar fantasmas e deixar que o prazer do reconhecimento faça o trabalho pesado. Esse cálculo funcionou de maneira quase obscena: o filme marcou 2,89 bilhões de minutos assistidos numa única semana nos Estados Unidos, recorde para um longa no ranking de streaming da Nielsen — com apenas três dias de disponibilidade contabilizados naquela janela. Audiência, por evidente, não absolve defeitos, mas ajuda a explicar uma coisa sobre nossa relação com personagens antigos: gostamos de reencontrá-los porque, enquanto eles ainda estão por aí, podemos alimentar a superstição de que parte de nós também não envelheceu.
Happy continua vulgar, inconveniente, sentimental e dado a resolver com o corpo aquilo que a razão talvez administrasse melhor. A diferença é que agora os joelhos doem. Sandler encontra justamente nessa perda de potência o que o filme tem de mais humano, e por alguns instantes a continuação deixa de ser o parque temático da lembrança que quase sempre é. Os melhores buracos não são aqueles em que a bola entra de primeira; são os que obrigam o jogador a aceitar que já não tem a mesma tacada. E seguir o percurso assim mesmo.

