Não ver é muito diferente de não saber. Pode-se fechar os olhos diante do perigo e ainda assim sentir-lhe a presença pelo ruído, pelo cheiro, pela mudança do ar, por aquele mecanismo primitivo que sobrevive em algum lugar do corpo desde quando nossos ancestrais precisavam descobrir, depressa, se o movimento atrás da vegetação era causado pelo vento ou por uma fera. “Bird Box” constrói seu melhor terror nesse espaço entre a certeza de que alguma coisa está ali e a impossibilidade de lhe atribuir uma forma. Susanne Bier poderia ter mostrado o monstro. Ao escondê-lo, faz do imaginário do espectador um departamento de efeitos especiais muito mais eficiente — e barato.
Malorie, a personagem de Sandra Bullock, já não nutre grande entusiasmo pelo gênero humano quando o mundo começa a acabar. Grávida e muito pouco inclinada à maternidade sentimental das propagandas de fralda, ela vê a sociedade ser destruída por uma presença que leva quem a encara diretamente ao suicídio. O roteiro de Eric Heisserer, baseado no romance de Josh Malerman, intercala o princípio do colapso com uma viagem posterior, em que Malorie conduz duas crianças por um rio, todos vendados, à procura de um abrigo que talvez nem exista. A estrutura revela bastante e esconde o fundamental, artifício que Bier administra melhor nas passagens silenciosas, quando um galho quebrado ou uma voz fora de quadro pode ser mais ameaçador que qualquer criatura de dentes à mostra.
A casa em que Malorie se refugia reúne um pequeno catálogo da humanidade diante da catástrofe. Douglas, vivido por John Malkovich, prefere desconfiar de todos e não faz questão de parecer agradável; Tom, de Trevante Rhodes, ainda acredita que solidariedade pode ser uma estratégia de sobrevivência; Olympia, também grávida, oferece a vulnerabilidade que Malorie procura arrancar de si mesma. Como sempre acontece nesses microcosmos de fim do mundo, a ameaça do lado de fora é apenas uma das preocupações. Homens e mulheres confinados, famintos e tomados pelo medo rapidamente demonstram que o apocalipse não inventa defeitos; apenas retira a necessidade de escondê-los. Bullock entende isso e compõe Malorie pela contenção, resistindo à tentação de transformar a heroína numa máquina de sofrimento edificante.
Vendados dentro do apocalipse
Há fragilidades. Alguns coadjuvantes existem quase exclusivamente para morrer na hora adequada, a lógica da ameaça precisa ser elasticamente ajustada às necessidades do roteiro e a metáfora da maternidade chega a pedir explicações que o filme talvez não tenha. Bier, contudo, recupera o controle sempre que retorna a Malorie, às crianças e ao rio. A venda sobre os olhos, transformada em imagem universal do longa, funciona porque elimina aquilo em que o cinema mais confia: a visão. O espectador está diante de uma obra audiovisual que o apavora sugerindo que olhar é precisamente o que não se deve fazer. Há uma malícia sofisticada nessa contradição.
Em dezembro de 2018, a Netflix anunciou que 45.037.125 contas haviam assistido a “Bird Box” nos primeiros sete dias, então o melhor desempenho inicial de um filme da plataforma. Era outra metodologia — “contas” daquele período não podem ser comparadas diretamente aos “views” utilizados hoje —, mas a dimensão do fenômeno foi evidente. A venda virou fantasia, desafio irresponsável de internet e uma das imagens mais reconhecíveis da primeira fase do cinema original da Netflix.
O sucesso talvez tenha vindo justamente daquilo que Bier teve a inteligência de não oferecer. Num tempo em que tudo precisa ser mostrado, explicado, ampliado, revisto em câmera lenta e convertido em imagem compartilhável, “Bird Box” prosperou dizendo que há coisas que não podemos encarar. Malorie passa boa parte do filme ensinando às crianças a não olhar para o mundo. O paradoxo é que, para salvá-las, ela terá de encontrar alguma razão para acreditar que ainda vale a pena vê-lo.

