Há lugares em que uma sociedade muda antes que seus habitantes percebam. Uma loja de departamentos pode ser um deles. Em “Damas de Preto”, Bruce Beresford volta à Sydney de 1959 para acompanhar mulheres que passam os dias vestindo outras mulheres e, entre uma saia, um chapéu e um vestido para ocasiões especiais, começam a experimentar uma liberdade que ainda não recebeu nome adequado. A Austrália está às portas dos anos 1960, a imigração europeia altera hábitos de um país acostumado a olhar para si mesmo como uma extensão bastante distante do Reino Unido e garotas inteligentes começam a cometer a ousadia de imaginar que casamento talvez não seja a única universidade à qual tenham direito. Beresford conta tudo isso sem levantar a voz, e às vezes até poderia levantá-la um pouco mais.
Lisa é a porta de entrada. A adolescente interpretada por Angourie Rice consegue um emprego temporário na Goode’s durante as férias de verão, enquanto espera o resultado dos exames que poderão levá-la à universidade. Tímida, leitora voraz e ainda submetida à autoridade de um pai para quem a formação intelectual de uma filha parece uma extravagância, ela chega ao salão feminino como quem põe os pés num país estrangeiro. As funcionárias vestem preto, mas o mundo que lhe apresentam é muito mais colorido que aquele conhecido em casa. Fay, de Rachael Taylor, enfrenta sua própria coleção de desilusões amorosas; Patty, vivida por Alison McGirr, tenta descobrir o que aconteceu com o desejo dentro do casamento; e Magda, a imigrante europeia de Julia Ormond, compreende de imediato que Lisa não nasceu para passar a vida embrulhando compras.
Uma revolução entre vestidos e livros
Beresford adapta com Sue Milliken o romance “The Women in Black”, de Madeleine St John, publicado em 1993, e a delicadeza da matéria original parece interessá-lo mais que qualquer possibilidade de conflito ruidoso. É uma escolha honesta, embora cobre seu preço. Racismo, xenofobia, emancipação feminina, provincianismo e desigualdade entre homens e mulheres atravessam a narrativa, mas raramente deixam hematomas. O diretor prefere acompanhar as pequenas transformações provocadas por uma conversa, um convite para jantar, um vestido escolhido com gosto, um homem que descobre que alho não é uma ameaça à civilização anglo-saxônica. A revolução aqui usa perfume e salto baixo.
Magda é quem melhor corporifica essa passagem entre dois mundos. Julia Ormond faz da personagem uma mulher que sabe o valor da elegância sem confundi-la com submissão e que olha para a Austrália como terra de oportunidades, mas também como um lugar ainda necessitado de algum arejamento. Sua casa, suas amizades e seu marido Stefan, interpretado por Vincent Perez, oferecem a Lisa uma experiência quase antropológica: existem adultos que bebem, discutem livros, cozinham comidas desconhecidas, recebem estrangeiros e não parecem pedir desculpas por estarem vivos. O encanto da menina por esse universo poderia cair facilmente na idealização, mas Angourie Rice evita o perigo conferindo a Lisa uma curiosidade muito mais interessante que a mera ingenuidade.
Fay, Rudi e os preconceitos do pós-guerra
O núcleo de Fay e Rudi acrescenta outra nota à história. Ela carregara preconceitos contra os “novos australianos”, como eram chamados muitos dos imigrantes europeus do pós-guerra, até que o húngaro interpretado por Ryan Corr passa a desmontar algumas de suas certezas com uma arma infalível em histórias como essa: a convivência. Beresford não esconde sua esperança quase obstinada no poder civilizador do encontro entre pessoas diferentes. Esse humanismo pode parecer doce demais para quem espera arestas mais fundas, e o filme realmente alisa situações que poderiam ferir, sobretudo quando os homens são chamados a prestar contas de suas certezas antiquadas.
Ainda assim, há uma beleza nada desprezível nessa modéstia. “Damas de Preto” não pretende fazer de Lisa uma incendiária nem das mulheres da Goode’s uma célula revolucionária clandestina. Elas trabalham, namoram, casam, erram, escolhem roupas, reconsideram opiniões e avançam alguns centímetros por vez, como quase sempre acontece fora do cinema. Beresford entende que uma sociedade não muda apenas quando multidões marcham pelas ruas; muda também quando uma garota volta para casa e descobre que já não cabe no destino que haviam preparado para ela. Angourie Rice captura precisamente esse instante. Lisa entra na Goode’s para ganhar algum dinheiro. Sai de lá sabendo que pode ganhar o mundo.

