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Poucas cidades do mundo são tão cinematográficas quanto Paris, e poucas parecem tão inadequadas a um tubarão. Talvez esteja justamente aí a boa maluquice de “Sob as Águas do Sena”, filme em que Xavier Gens troca as águas ensolaradas do Pacífico pelo rio que atravessa a capital francesa e transforma pontes, catacumbas, túneis e cais em território de caça. O que poderia resultar apenas numa imitação tardia de “Tubarão” (1975), de Steven Spielberg, vai revelando um espírito próprio à medida que o diretor aceita o absurdo da premissa e percebe que, diante de um predador gigantesco nadando no Sena às vésperas de uma competição internacional, qualquer excesso já nasce autorizado. O longa é menos sobre um peixe impossível que sobre a arrogância muito humana de continuar a festa quando todos os sinais dizem que seria melhor correr.

Sophia Assalas sabe disso antes de todo mundo. A cientista interpretada por Bérénice Bejo sobreviveu a uma expedição no Pacífico durante a qual Lilith, um tubarão que acompanhava para fins de pesquisa, atacou sua equipe e deixou-lhe uma conta emocional que ela não consegue pagar. Três anos mais tarde, Sophia vive em Paris, tentando manter o passado numa distância administrável, até que Mika, uma jovem ambientalista, reaparece com uma informação difícil de engolir: o sinal do animal foi detectado no Sena. Gens não perde demasiado tempo defendendo cientificamente a viagem e faz bem. Tubarões em água doce, mutações, adaptação biológica e mudanças ambientais entram na história como instrumentos para que a criatura esteja onde precisa estar, isto é, debaixo de uma cidade convencida de que domina a natureza porque colocou pedra, concreto e iluminação sobre ela.

Paris vira território de caça

É na aproximação entre Sophia e Adil, comandante da brigada fluvial vivido por Nassim Lyes, que “Sob as Águas do Sena” encontra alguma humanidade para além das mordidas. Ele representa o pragmatismo de quem precisa resolver o problema com os recursos disponíveis; ela conhece o tamanho do desastre antes mesmo que ele aconteça. Léa Léviant, na pele de Mika, empurra os dois para uma zona mais incômoda, porque sua militante está certa quanto à negligência ambiental e perigosamente errada quanto à ideia de que boas intenções bastam diante de uma fera. Gens não poupa ninguém. Cientistas carregam culpas, ativistas confundem convicção com imunidade, policiais chegam atrasados e autoridades públicas descobrem prodigiosas razões para que um evento grandioso não seja cancelado. O tubarão, nesse conjunto, talvez seja a criatura mais coerente.

Há algo saborosamente francês na decisão de transformar um filme de monstro numa sátira administrativa. Paris prepara um triatlo no Sena, as câmeras já estão posicionadas, o mundo está olhando e a possibilidade de uma carnificina torna-se menos urgente que a inconveniência política de admitir que alguém perdeu o controle. É quando o longa melhora. Gens deixa de pedir licença ao realismo, amplia a escala do desastre e empurra a história para uma sucessão de eventos em que cada tentativa humana de corrigir o problema parece torná-lo mais grave. A contenção do primeiro ato vai desaparecendo, e o diretor se sente muito mais confortável quando sua Paris começa a parecer uma metrópole castigada por uma passagem bíblica que ninguém havia levado a sério.

Bérénice Bejo segura o desastre

Bérénice Bejo sustenta Sophia sem deixar que a personagem se converta numa caricatura de cientista traumatizada, embora o roteiro nem sempre lhe ofereça material à altura. O mesmo vale para Lyes, convincente como um homem de ação que precisa acreditar numa situação que afronta qualquer bom senso. Ao redor deles, tipos secundários entram e saem depressa demais, muitos concebidos para que o espectador já imagine sua utilidade na cadeia alimentar. Não chega a ser um defeito fatal. Filmes com tubarões quase sempre exigem vítimas antes de exigirem personagens.

O grande mérito de “Sob as Águas do Sena” é perceber isso e, depois de alguma hesitação, abandonar a pretensão de ser um grave manifesto ecológico para tornar-se uma extravagância de terror e desastre que usa o ambientalismo como combustível, não como sermão. Gens tem plena consciência da sombra gigantesca de Spielberg, mas prefere brincar dentro dela a fingir que não existe. Lilith não precisa ser o novo Bruce, o tubarão mecânico que mudou o cinema em 1975. Basta-lhe nadar por Paris enquanto homens e mulheres muito civilizados continuam convencidos de que o problema pode ser resolvido por decreto. Nesse duelo, a natureza nem precisa trapacear.


Filme: Sob as Águas do Sena
Diretor: Xavier Gens
Ano: 2024
Gênero: Suspense/Terror
Avaliação: 4/5 1 1
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