A determinação é o abrigo do homem nas tempestades da vida. Mas o destino, esse tirano, insiste em lembrar-nos de que nem sempre vencemos guerras só com bravura. Desvia-nos da rota o imponderável, que também transforma certezas em dúvidas, esperanças em despedidas. Descortina-se o universo paralelo e mágico, santo e diabólico, onde se dão eventos de toda sorte, arrevesa-se a natureza das emoções, atira-se ao fogo o que pensávamos eterno, mas o essencial continua. Nascido numa família de católicos praticantes e devotos, Ronan Tronchot nunca escondeu a curiosidade por casos de sacerdotes que abandonavam seu ministério por uma ligação amorosa pela vontade de constituir família. Parte de seu interesse por essas histórias, abafadas, vem a lume em “Amor Paterno”, concentrado no novo homem que se forma desse aparente infortúnio, passaporte para afetos exigentes, mas sagrados.
Pai por acaso
Depois de uma busca algo extenuante, Simon encontrou-se como pároco numa igreja de Auxerre, uma comuna na região da Borgonha. Seus dias correm entre os deveres burocráticos e os cuidados com seu rebanho, e o roteiro de Tronchot e Ludovic du Clary dedica um olhar particularmente minucioso às dificuldades e aos sobressaltos desse sujeito comum diante das epifanias que brotam de almas serenas. Onze anos depois da ordenação, Louise, uma mulher que conhecera durante o período no seminário, lhe diz que ele é pai de um menino, Aloé, e esse é o gancho de que o diretor se vale para chegar a temas que também o inquietam. Aborto, celibato de padres e uma maior e mais inclusiva abertura da Igreja são abordados com franqueza e um certo didatismo que não mina a força do que é contado, graças ao talento de Grégory Gadebois, que costura as atuações precisas e sem ornamentos de Géraldine Nakache e Anton Alluin.

