Pode não ser exatamente fácil, mas sempre pode-se escolher, entre duas, três ou um milhão de possibilidades a que mais se adequa ao que as outras pessoas esperariam de nós. Conforme o tempo avança, mais necessário é parar, tomar algum fôlego e refletir acerca do que tem sido a vida até então, estratégia tão simples quanto poderosa para se conquistar o que achávamos ser nosso por direito, mas que escapou-nos sem perdão do modo mais risível. Em meados da década de 1980, a ânsia por ter uma vida extraordinária reuniu uma tríade de jovens noruegueses, e pouco depois nasceu não apenas uma banda, mas um jeito de se fazer rock, inaudito — e, para muitos, execrável. Ao longo dos 118 minutos de “Senhores do Caos”, o sueco Jonas Åkerlund destrincha a história do Mayhem e, por conseguinte, do black metal encadeando um rol de curiosidades e fatos esdrúxulos sobre a banda, até que o enredo surpreende até o fã mais devoto com a violência como tudo acaba. Uma daquelas tramas que só mesmo a vida como ela é poderia urdir.
Música e sangue
Baseado em “Senhores do Caos: A Ascensão Sangrenta do Underground do Metal Satânico” (1997), dos jornalistas Michael Moynihan e Didrik Søderlind, o roteiro de Åkerlund e Dennis Magnusson compõe um retrospecto hiperrealista da Mayhem, no qual os personagens surgem e vão saindo da tela para pegar o espectador no contrapé, sem dó. A criação do “autêntico black metal norueguês” é uma ideia fixa para Øystein Aarseth (1968-1993), um guitarrista de dezesseis anos que parece obcecado por si mesmo e pela mística que sua imagem pode despertar. Åkerlund foge desse endeusamento e concentra-se nas figuras humanas bem-disfarçadas por maquiagens fantasmagóricas e roupas de couro esfacelando-se após dias sob o solo. Euronymous, como Aarseth se apresentava, recorrendo a um pseudônimo autoelogioso, junta-se a Per Yngve Ohlin (1969-1991), o Dead, como se num encontro de almas perdidas no Hades, e não por acaso os dois amargaram um fim de tragédia. Morrer cedo não é para todos.

