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Colm Tóibín é um escritor que faz o sofisticado parecer simples. “Brooklyn” (2009), sobre uma imigrante irlandesa no bairro nova-iorquino de mesmo nome nos anos 1950, não é só um romance: é uma ode ao infortúnio. Esse ponto de vista demasiado humano acerca dos perigos do existir, o rigor histórico a toda prova e o evidente apuro estético são captados por John Crowley na versão cinematográfica do livro, um enredo composto por cenas de assombrosa poesia num viés que recusa simplificações. Crowley leva o espectador pelo começo da nova vida de Eilis Lacey, uma sonhadora cujo espírito livre busca não fenecer em meio a um horizonte estreito demais, mas experimenta a terrível sensação de perder-se de si mesma.

A arte de não achar

Enniscorthy é o porto seguro de Eilis, mas ela quer mar aberto. Essa fome de aventura, esse enlevo por deixar a família e o conforto de uma vida previsível empurra-a ao Atlântico, depois de arrumar emprego de vendedora numa loja de departamentos em Nova York com a ajuda do pároco local. Tarimbado, Nick Hornby sabe o caminho para chegar às entrelinhas de Tóibín, amalgamando o semblante crispado da protagonista a seu temperamento doce, conseguindo imagens de melancolia e beleza. O autor de “Alta Fidelidade” (1995), livro que deu origem ao filme homônimo de Stephen Frears lançado em 2000, do qual também é roteirista, também alcança a proeza de evocar Elizabeth Bishop (1911-1979), a poetisa americana que atracou no Rio de Janeiro em 1951, sequiosa de terra firme e acolhedora, mágica que se mantém até a conclusão, asperamente realista, mas ainda assim poético. Saoirse Ronan garante a justa substância dramática para manter a sobriedade natural da pena de Tóibín, e o dilema amoroso de Eilis, encarnado pelos personagens de Emory Cohen e Domhnall Gleeson, repisa o argumento da fatalidade, do destino como um verdugo impiedoso. Com uma placidez mais e mais rara.


Filme: Brooklyn
Diretor: John Crowley
Ano: 2015
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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