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A rara sensibilidade de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) permitiu-lhe enxergar beleza em situações prosaicas, e assim nasceu uma obra tão vasta quanto impressionante, adjetivo que nomeou uma maneira revolucionária de pintar. Bain à La Grenouillère (1869), retrato de banhistas no rio Sena, marcou o nascimento do impressionismo. Numa estimulante criação coletiva, Renoir e Claude Monet (1840-1926) pintaram lado a lado, num esforço de capturar a mesma cena sob diversas inspirações. Lampejos de criatividade e vigor artístico também não faltam a Gilles Bourdos, que registra em “O Último Verão de Renoir” os derradeiros anos do gênio, que parecia sempre disposto a sacar da manga aquela carta com que ludibriaria o destino e ficaria mais um pouco, pintando flores e mulheres. Principalmente mulheres.

Retrato do artista quando velho

Na Riviera Francesa, Renoir, viúvo de Aline Charigot (1859-1915) e sucumbindo a uma artrite inclemente, está numa má fase. Em 1915, a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) já começa a deixar um rastro de destruição e abatimento, o que se reflete no ânimo do velho artista, buscando motivos para não abandonar as telas. Andrée Heuschling (1900-1979) vem para mudar as vidas de Pierre-Auguste e de Jean (1894-1979), segundo de seus três filhos, e a partir de então o filme embrenha-se na intimidade deles, figuras humanas cada qual com sua frequência e seu brilho. A sensação de se privar de detalhes da vida doméstica dos Renoir e Andrée na propriedade da família em Cagnes-sur-Mer é justificada em parte ao saber-se que o roteiro é coassinado pelo fotógrafo e diretor de Fotografia Jacques Renoir (1942-2024), bisneto do Pai do Impressionismo, juntamente com Bourdos e Jérôme Tonnerre. A outra razão toca aos desempenhos de Michel Bouquet e Vincent Rottiers e, claro, Christa Théret, que faz uma Andrée rica em nuanças, capaz de influenciar dois homens aparentemente impermeáveis, presos a suas convicções.


Filme: O Último Verão de Renoir
Diretor: Gilles Bourdos
Ano: 2012
Gênero: Biografia/Drama/Romance
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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