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Ser transformada numa criatura poderosa depois que uma indústria de cosméticos tenta matá-la poderia ser o início de uma sátira deliciosamente cruel sobre a obsessão feminina pela juventude. “Mulher-Gato” tem essa história nas mãos e prefere brincar com novelos. Dirigido pelo francês Pitof, o longa de 2004 apresenta Halle Berry como Patience Phillips, artista tímida empregada da Hedare Beauty que descobre o segredo por trás de um produto antienvelhecimento perigoso, é assassinada por isso e retorna à vida dotada de força, velocidade, agilidade e sentidos felinos. Benjamin Bratt, Sharon Stone, Lambert Wilson e Frances Conroy orbitam à volta dessa heroína que não é Selina Kyle e cuja aventura existe praticamente à margem da mitologia de Batman.

Essa independência poderia ter sido libertadora. Durante décadas, a Mulher-Gato habitou uma relação de atração e conflito com o Homem-Morcego, e separar a personagem desse universo abriria caminho para outra criatura, menos prisioneira de Gotham, dos Wayne e das expectativas dos fãs. Pitof, entretanto, não sabe exatamente o que fazer com a liberdade que recebeu. Patience passa os primeiros minutos escondida em roupas largas, pedindo licença para existir, suportando um chefe grotesco e atravessando a rotina como alguém que espera desculpas do mundo por ocupar espaço demais. Quando morre e volta, a transformação precisa ser percebida imediatamente, e o filme resolve essa questão da forma mais elementar possível: Berry ganha couro, chicote, decote e uma nova maneira de andar.

Couro, chicote e a falsa emancipação

A mulher emancipada, segundo essa lógica, seria a mulher que finalmente aprende a ser objeto com desenvoltura.

Há algo involuntariamente fascinante nisso. A Hedare Beauty prepara o lançamento de um creme capaz de interromper o envelhecimento da pele, escondendo efeitos adversos que comprometem a saúde das consumidoras. Laurel Hedare, interpretada por Sharon Stone, serve como o resultado extremo dessa religião da aparência, e por alguns instantes o filme parece prestes a dizer algo venenoso acerca de uma indústria que ganha bilhões convencendo mulheres de que envelhecer constitui uma falha de caráter. Então Patience começa a miar para estranhos, esfregar-se em objetos, comer atum diretamente da lata e disputar uma partida de basquete num flerte tão espalhafatoso com Tom Lone, o policial de Benjamin Bratt, que qualquer discussão mais interessante foge pela janela.

Berry, contudo, não abandona a personagem. Esse talvez seja o aspecto mais curioso de “Mulher-Gato”: a estrela trabalha como se estivesse num filme muito melhor. Patience é tímida sem ser completamente apagada, sensual sem que Berry pareça acreditar em todas as poses impostas pela direção, e até as sequências mais absurdas ganham alguma energia quando a atriz decide assumir a natureza camp do material. Sharon Stone faz movimento semelhante, mas por outra estrada. Sua Laurel já atravessou a fronteira do ridículo e não demonstra nenhuma intenção de voltar.

Quando a câmera atrapalha Halle Berry

Pitof parece menos interessado nessas duas mulheres que nos truques usados para movimentá-las. A câmera gira, despenca, acelera, aproxima-se demais; a montagem fragmenta confrontos que deveriam depender da fisicalidade de Berry; imagens digitais transformam saltos e corridas numa animação desajeitada justamente quando o filme deveria explorar a presença corporal de sua protagonista. Era o começo dos anos 2000, época em que Hollywood ainda se encantava com a possibilidade de substituir qualquer limite físico por computação gráfica, e “Mulher-Gato” envelheceu como testemunho pouco lisonjeiro dessa euforia.

Frances Conroy surge como Ophelia Powers, a mulher que fornece a Patience uma explicação mística para o que lhe aconteceu, relacionando sua nova natureza a uma antiga linhagem de mulheres escolhidas por gatos. O roteiro busca no Egito uma solenidade que o restante do filme não sustenta. Há nove vidas, renascimento, destino, liberdade, uma conspiração empresarial e até um romance policial, mas nenhum desses fios permanece esticado por tempo suficiente para amarrar a história.

No fim, resta Halle Berry. É pouco para um filme que recebeu uma das personagens femininas mais magnéticas dos quadrinhos, mas é mais do que “Mulher-Gato” parece merecer. Patience passa a aventura inteira aprendendo que não precisa escolher entre a mulher que era e a criatura em que se transformou. Pitof, infelizmente, não alcança a mesma sabedoria: seu filme nunca decide se quer ser fantasia, thriller corporativo, romance, comédia involuntária ou aventura de super-herói. Gatos costumam cair de pé. Este não teve a mesma sorte.


Filme: Mulher-Gato
Diretor: Pitof
Ano: 2004
Gênero: Ação/Fantasia
Avaliação: 2.5/5 1 1
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