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Hirayama (Kōji Yakusho) desperta cedo em seu pequeno apartamento, dobra o futon, rega as plantas e veste o uniforme. Antes que Tóquio fique tomada por carros e pedestres, ele entra na van de serviço, escolhe uma fita cassete e começa mais um expediente. Em “Dias Perfeitos”, produção de 2023 dirigida por Wim Wenders, um limpador de banheiros públicos protege sua rotina porque ela lhe oferece a paz que certas lembranças familiares ameaçam romper.

A vida de Hirayama segue uma ordem simples. Ele limpa vasos, espelhos, pias e pisos com atenção, almoça perto das árvores e fotografa folhas atravessadas pela luz. Depois do trabalho, frequenta um banho público, come em restaurantes modestos e lê antes de dormir. A repetição não nasce de preguiça ou falta de ambição. Cada hábito foi escolhido por um homem que parece ter encontrado uma distância suportável entre ele e o restante do mundo.

Banheiros antes da cidade

Os banheiros de Shibuya passam longe da imagem desagradável normalmente associada a esses espaços. São construções modernas, algumas desenhadas por arquitetos conhecidos, espalhadas por parques e áreas movimentadas de Tóquio. Hirayama trata cada unidade com seriedade, mesmo quando os usuários mal percebem sua presença. Ele espera alguém sair, entra com os produtos de limpeza e devolve o espaço em boas condições para a próxima pessoa.

Wenders acompanha esse trabalho sem pressa e sem buscar grandeza artificial. A câmera permanece perto das mãos de Hirayama, dos instrumentos usados na limpeza e dos objetos esquecidos pelos frequentadores. O serviço revela disciplina, mas também a invisibilidade social do personagem. Quase todos utilizam os banheiros sem olhar para o homem ajoelhado diante do chão. Hirayama aceita essa condição, termina a tarefa e segue para o próximo endereço.

Seu assistente Takashi (Tokio Emoto) possui outra relação com o emprego. O jovem chega atrasado, fala sem parar e executa as tarefas com menos cuidado. Enquanto Hirayama verifica cada detalhe, Takashi pensa em dinheiro, romances e maneiras de impressionar Aya (Aoi Yamada), a garota por quem está interessado. A diferença entre os dois produz algumas das passagens mais divertidas do drama. Para Hirayama, o colega representa um atraso ambulante com uniforme de trabalho.

Takashi invade a rotina

Takashi começa a pedir favores e arrasta o parceiro para problemas pessoais. Ele ocupa a van, interfere no expediente e vê valor comercial na coleção de fitas cassete de Hirayama. O limpador resiste à pressão porque aquelas músicas pertencem a uma parte íntima de seus dias. Lou Reed, Patti Smith, The Animals e Nina Simone acompanham seus deslocamentos e oferecem uma companhia que não exige conversa.

Aya desperta curiosidade por esse universo analógico. A jovem ouve uma das fitas e percebe que existe algo especial na relação entre Hirayama e a música. A aproximação é breve e delicada, suficiente para quebrar a reserva do trabalhador por alguns instantes. Ele fica desconcertado diante de uma demonstração espontânea de carinho, guarda a surpresa e retorna ao serviço. Poucas palavras são necessárias para que Kōji Yakusho registre afeto, timidez e certa alegria juvenil.

A atuação de Yakusho sustenta “Dias Perfeitos” porque Hirayama fala pouco. Seu rosto assume a responsabilidade de revelar irritação, ternura, cansaço e prazer. Um olhar dirigido às árvores informa mais que uma conversa. Uma pausa diante de uma visita mostra que existe uma história escondida naquela casa. Wenders respeita esse silêncio e entrega apenas fragmentos, preservando as informações capazes de mudar a percepção sobre o personagem.

Niko aparece sem aviso

A rotina sofre sua maior mudança quando Niko (Arisa Nakano), sobrinha de Hirayama, aparece em seu apartamento. A jovem saiu de casa e procura abrigo junto ao tio, embora os dois não convivam com frequência. Hirayama permite que ela fique e compartilha com a visitante seus hábitos, os passeios de bicicleta e o interesse pelas árvores. A presença de Niko ocupa um espaço antes reservado ao silêncio.

A convivência revela um lado mais afetuoso do protagonista. Hirayama escuta a sobrinha, oferece proteção e permite que ela acompanhe parte do trabalho. Niko observa a vida modesta do tio sem desprezo e demonstra curiosidade por suas escolhas. O encontro também aproxima Hirayama de parentes mantidos a distância, situação que devolve ao apartamento lembranças que ele havia deixado fora de sua rotina.

Arisa Nakano interpreta Niko com leveza, sem transformar a adolescente em simples mensageira do passado. Ela possui suas próprias inquietações e busca alguns dias longe da casa da mãe. A jovem reconhece no tio uma forma diferente de viver, menos dependente de dinheiro e aparências. Hirayama, por sua vez, descobre que acolher alguém significa aceitar perguntas, mudanças de horário e a possibilidade de perder novamente uma companhia querida.

O passado chega à porta

A família de Hirayama aparece aos poucos, sem que “Dias Perfeitos” apresente uma biografia completa. O espectador recebe sinais de que o limpador nasceu em um ambiente mais rico e manteve relações difíceis dentro de casa. Sua profissão causa estranhamento entre os parentes, principalmente porque sua escolha parece incompreensível para quem associa sucesso a prestígio e patrimônio.

Wenders não transforma essa diferença em discurso. Ele deixa que roupas, carros, formas de tratamento e pausas na conversa revelem a distância entre Hirayama e sua família. O protagonista mantém sua decisão, embora o reencontro retire parte da tranquilidade que sustentava seus dias. Seu silêncio deixa de parecer apenas serenidade e passa a carregar uma dor antiga, ainda sem nome completo.

Cada dia preserva uma diferença

“Dias Perfeitos” poderia romantizar a pobreza ou vender a solidão como remédio para a vida moderna. Wenders escolhe um caminho mais sensível. Hirayama sente prazer em sua rotina, porém enfrenta cansaço, abandono, frustração e saudade. Ele aprecia livros e música, mas também precisa lidar com combustível, colegas ausentes e jornadas maiores quando o trabalho aperta.

As sequências de sonho, feitas com imagens em preto e branco, misturam árvores, rostos e lembranças. Elas surgem depois dos dias vividos pelo personagem e guardam emoções que ele raramente verbaliza. A técnica não oferece uma chave definitiva para Hirayama. Apenas preserva a sensação de que sua paz exige esforço diário.

“Dias Perfeitos” encontra beleza nos detalhes sem fingir que toda dificuldade desaparece diante de uma árvore. Hirayama continua trabalhando porque escolheu aquela vida e porque o trabalho garante sua independência. Quando pessoas atravessam seus hábitos, ele sofre, acolhe, perde algumas horas e segue adiante. Na manhã seguinte, entra na van, coloca uma fita para tocar e dirige rumo ao primeiro banheiro do expediente.


Filme: Curvas da Vida
Diretor: Wim Wenders
Ano: 2023
Gênero: Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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