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Os pobres sempre imaginaram que os ricos vivem num outro mundo. Lana e Lilly Wachowski levam a metáfora às últimas consequências em “O Destino de Júpiter”, transformando-a numa aventura espacial em que os verdadeiramente endinheirados vivem mesmo longe da Terra, possuem planetas, atravessam milênios e enxergam populações inteiras com o mesmo interesse de um fazendeiro diante de sua próxima safra. No centro dessa epopeia barroca está Jupiter Jones, a imigrante vivida por Mila Kunis, que limpa banheiros em Chicago até descobrir ser parte de uma disputa sucessória cósmica. Channing Tatum, Eddie Redmayne, Sean Bean, Douglas Booth, Tuppence Middleton e Gugu Mbatha-Raw completam esse universo concebido pelas Wachowski como uma ópera espacial original.

É uma premissa grandiosa, quase ridícula, e justamente aí mora o encanto e a desgraça do filme. As diretoras têm ideias suficientes para três trilogias e parecem decididas a usar todas em pouco mais de duas horas. Jupiter sai de uma rotina de faxinas e problemas domésticos para descobrir que sua assinatura genética a coloca no caminho dos Abrasax, uma dinastia cuja riqueza ultrapassa qualquer noção terrestre de fortuna. Caine Wise, o guerreiro geneticamente modificado encarnado por Tatum, aparece para protegê-la e passa boa parte da história deslizando pelo ar em botas antigravitacionais, com o semblante de quem já viu absurdos demais para se surpreender com mais um.

A aristocracia que colhe planetas

A questão realmente interessante vem por trás dessa parafernália. Os Abrasax descobriram como prolongar a vida mediante uma substância produzida a partir de seres humanos. Planetas habitados são propriedades agrícolas; civilizações são rebanhos; bilhões de indivíduos tornam-se matéria-prima para que uns poucos privilegiados permaneçam jovens. A ficção científica sempre soube como exagerar a realidade até que ela pareça mais verdadeira, e a ideia de uma aristocracia intergaláctica que consome populações inteiras para conservar o próprio vigor é menos delirante do que a princípio soa. O problema é que as Wachowski quase nunca permanecem tempo suficiente diante dessa descoberta.

Jupiter precisa correr. Ela é sequestrada, salva, enganada, cortejada, novamente sequestrada, novamente salva e apresentada a burocratas, nobres, soldados, híbridos e criaturas que surgem como se o espectador já dispusesse de um manual de instruções. Uma sequência administrativa em que a protagonista tenta validar sua condição de herdeira é uma das melhores do longa precisamente porque, por alguns minutos, a corrida cessa e o universo fica ridiculamente parecido com o nosso. Nem para uma rainha de um pedaço respeitável da galáxia existe salvação diante de formulários, guichês e funcionários públicos. Terry Gilliam aparece nesse segmento, e é difícil imaginar homenagem mais adequada ao diretor de “Brazil” (1985), outra distopia em que a burocracia é uma das formas preferidas de tortura.

Eddie Redmayne entende a ópera

Eddie Redmayne compreende melhor que ninguém o tom da brincadeira. Seu Balem Abrasax fala como se economizasse oxigênio para, segundos depois, explodir numa gritaria operística, compondo um vilão simultaneamente ameaçador e risível. Mila Kunis faz o caminho inverso e tenta manter Jupiter no plano humano, mas a personagem sofre com a passividade que o roteiro lhe impõe. Quase todos dizem que ela é importante; quase todos decidem o que fazer com ela.

A desmedida visual também não ajuda sempre. Palácios, naves, batalhas, criaturas aladas e cidades impossíveis chegam numa abundância que acaba diminuindo o espanto. Há momentos em que se tem a sensação de entrar num museu gigantesco e correr por todas as salas porque faltam quinze minutos para fechar.

Mesmo assim, é difícil desprezar completamente “O Destino de Júpiter”. Há fracassos covardes, concebidos para obedecer ao mercado e esquecidos tão logo terminam, e há fracassos que chegam ao precipício carregando ideias demais. O filme das Wachowski pertence ao segundo grupo. Jupiter volta para a Terra e para uma existência aparentemente modesta depois de descobrir que o planeta inteiro vale uma fortuna e que, em algum ponto do espaço, ela é tratada como realeza. Parece pouco. Mas talvez alguém que tenha sobrevivido à própria coroação saiba que poder voltar para casa ainda é um privilégio.


Filme: O Destino de Júpiter
Diretor: Lana Wachowski e Lilly Wachowski
Ano: 2015
Gênero: Ação/Aventura/Ficção Científica
Avaliação: 3.5/5 1 1
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