O acaso costuma receber uma fama que talvez não mereça. Chamamos de coincidência aquilo para o qual não encontramos causa imediata, como se o universo, farto de nossa arrogância, resolvesse de quando em quando embaralhar pessoas, culpas, doenças, desejos, pecados antigos e contas vencidas apenas para lembrar que ninguém controla coisa alguma. Paul Thomas Anderson faz dessa suspeita o mecanismo inteiro de “Magnólia”, um drama de 1999 com quase três horas e dez minutos no qual uma dezena de personagens percorre o Vale de San Fernando durante um dia que parece comprimir muitas vidas. Há um pai moribundo, um filho que não quer vê-lo, um enfermeiro, uma esposa desesperada, um apresentador de televisão, duas crianças que conheceram cedo demais a crueldade dos adultos, um policial solitário e gente que passou anos tentando esquecer exatamente aquilo de que agora precisa lembrar.
Anderson já demonstra aqui uma vocação que aperfeiçoaria ao longo da carreira, a de aproximar criaturas aparentemente incompatíveis e esperar até que elas revelem a mesma rachadura. Não é preciso que Earl Partridge conheça Donnie Smith, ou que Claudia Wilson Gator sente-se à mesa com Linda Partridge, porque o diretor estabelece entre todos uma espécie de parentesco moral, uma irmandade formada por indivíduos devastados pela vergonha. Jason Robards transforma Earl num cadáver ainda respirando, rico o bastante para comprar qualquer conforto que a medicina possa oferecer, mas incapaz de adquirir o que realmente deseja quando a morte entra no quarto. Phil Parma, o enfermeiro vivido por Philip Seymour Hoffman, entende isso antes dos outros e assume uma missão aparentemente banal: encontrar Frank T.J. Mackey.
A máscara de Frank T.J. Mackey
Então Tom Cruise entra em cena, e o filme muda de temperatura.
Mackey construiu um império ensinando homens inseguros a dominar mulheres. Ele berra, rebola, exibe os músculos, transforma ressentimento em método comercial e vende masculinidade como se vendesse um aparelho de ginástica numa madrugada televisiva. O exagero é deliberado. Cruise sabe que precisa fazer daquele homem uma caricatura durante tempo suficiente para que a máscara, quando enfim rachar, revele algo quase infantil. A Academia o indicou ao Oscar de ator coadjuvante por esse trabalho; Anderson também concorreu pelo roteiro original, e “Save Me”, de Aimee Mann, foi indicada entre as canções.
Enquanto Mackey proclama suas certezas, Jimmy Gator apresenta um programa de perguntas e respostas em que adultos exploram o talento extraordinário de Stanley Spector, um menino que sabe tudo, menos como impedir que o pai transforme sua inteligência numa máquina de faturamento. William H. Macy responde pelo contraponto mais melancólico desse pequeno prodígio. Donnie Smith já foi Stanley. Adulto, sozinho, sem dinheiro e apaixonado por um homem que praticamente ignora sua existência, ele representa o que pode acontecer quando uma criança deixa de servir ao espetáculo e descobre que ninguém preparou lugar algum para ela no mundo real.
A mesma ferida em corpos diferentes
É por isso que a aparente desordem de “Magnólia” funciona. Anderson não está simplesmente cruzando histórias; está deslocando a mesma ferida de um corpo para outro. Pais fracassam com filhos, filhos passam décadas fingindo que superaram os pais, maridos mentem para esposas, esposas mentem para maridos e quase todos imaginam que uma nova identidade será suficiente para apagar o que veio antes. John C. Reilly fornece algum oxigênio na pele de Jim Kurring, o policial um tanto patético que conhece Claudia, de Melora Walters, e acredita ter encontrado numa mulher igualmente desajustada a possibilidade de uma vida menos árida. A ternura entre os dois é desajeitada, e justo por isso convence.
Até que chovem sapos.
Num filme menos corajoso, a famosa sequência transformaria todo o edifício numa piada. Anderson já havia estendido a verossimilhança ao máximo e, quando centenas de anfíbios despencam do céu sobre carros, casas e cabeças, resolve simplesmente rasgá-la. O milagre, castigo, catástrofe ou absurdo não oferece uma explicação; oferece interrupção. Gente que caminhava para a morte ganha alguns minutos, gente disposta a cometê-la é impedida, encontros tornam-se possíveis e aquelas vidas espalhadas pelo vale são obrigadas a levantar os olhos.
“Magnólia” não é um filme sobre coincidências. É sobre consequências. O passado talvez não determine todos os acontecimentos, mas tem excelente memória, e Anderson parece divertir-se com a ideia de que cedo ou tarde ele encontra nosso endereço. Quando os sapos finalmente param de cair e resta apenas uma garota olhando para um homem que tenta compreendê-la, não há mais necessidade de prodígios. Um sorriso basta.

