Verdadeiras mães não são exatamente racionais — e muito menos civilizadas. Depois de vencer as metafísicas preocupações quanto à consistência dos detritos fisiológicos; as agonias da adaptação à escola; a guerra trágica da adolescência, a incerteza quanto a ter feito um bom trabalho, observando de longe (mas não muito) o desempenho profissional dos pimpolhos, torcendo e rezando para que se firmem na carreira de uma vez por todas, as mães gozam de algum respiro para, afinal, cuidar de si mesmas e fazer boa parte das coisas que foram protelando ao longo de suas vidas. Às vezes, essa saída de cena se dá, claro, em contextos ainda mais penosos, com despedidas súbitas e sem pesar, uma fração do que Thom Fitzgerald apresenta em “Stage Mother”. Percebe-se logo o interesse do diretor quanto a dissecar um drama de família enquanto joga luz sobre questões sociais específicas e urgentes, e nesse movimento vai surgindo uma história que emociona e suscita indagações.
A intrometida
A maternidade parece mesmo um interminável dilema, repleto de escolhas de Sofia e de Salomão — e mais ainda para certas mulheres. Maybelline Metcalf sente que fracassou como mãe, e essa impressão é-lhe cruelmente óbvia ao saber que Rickey, seu único filho, está morto. Maybelline rege o coral de uma igreja batista de Red Vine, Texas, e aos poucos o roteiro de Brad Hennig pontua as diferenças entre o que foram e o que acabaram se tornando, valendo-se de flashbacks rápidos a fim de salientar que já foram bem parecidos um dia, muito tempo atrás. Rickey dedicava-se ostensivamente à Caixa de Pandora, a boate que já foi ícone da resistência dos homens gays de São Francisco, mas que há anos não acendia mais o interesse de ninguém, sobrevivendo do passado e da clientela antiga. Herdeira de Rickey aos olhos da lei, Maybelline conhece Nathan, o companheiro do filho, e as figuras excêntricas que deram fama ao clube, e o coração da história passa a bater em torno do relacionamento dessa senhora recatada, porém sensível, e os personagens que cercavam Rickey. Em grande forma, Jacki Weaver leva o público pelos vaivéns de um enredo que esmiúça as contradições da natureza humana com leveza, insistindo que os afetos mais improváveis podem ser também os mais sublimes.

