De quando em quando, os semideuses ficam cansados do Olimpo de onde observam o resto da pedestre humanidade e resolvem dar uma volta aqui embaixo, experimentando os prazeres e as dores dos simples mortais, sofrendo como eles, achando aí, outra glória. Essas figuras compostas da natureza do sonho, inatingíveis, se dão conta de que sua beleza, fama e dinheiro não lhes oferece as respostas para inquietações que caem do azul, pesadas, e congelam a vida, não por um momento de infortúnio mais severo, mas por muito tempo, até que, como sói ocorrer, o destino se impõe. Sobrevivente de uma barbárie, Celeste Montgomery fez do limão uma limonada, tornou-se uma estrela, ganhou o mundo, seduziu multidões, mas suas lembranças infelizes nunca a abandonaram, eixo do perturbador “Vox Lux: O Preço da Fama”. Atento aos detalhes, Brady Corbet dá uma contribuição valiosa para que se entenda o mecanismo que constrói e implode as ditas celebridades, alheio ao talento e à substância.
Nasce uma estrela
Corbet divide a história de Celeste em capítulos que mais parecem a saga de uma deusa pagã, com acontecimentos quase sempre grandiosos, emoções à flor da pele, confrontações ocultas que irrompem de uma vez e um intransponível senso de desorientação, tudo com movimento. O diretor e a corroteirista Mona Fastvold abrem o filme explicando como Celeste vira um dos maiores fenômenos da música pop, o que inclui a assustadora cena de um atirador juvenil que abre fogo contra a sala da protagonista, então uma adolescente igualzinho qualquer outra. Aos poucos, o enredo assume o andamento confessional que permanece até o desfecho, com arcos bem-desenvolvidos por Natalie Portman e Raffey Cassidy, versátil ao ir da jovem Celeste para Albertine, a filha da cantora.

