Em 1969, oito ativistas comparecem a um tribunal federal de Chicago acusados de planejar os conflitos ocorridos durante a Convenção Nacional Democrata do ano anterior. Dirigido por Aaron Sorkin, “Os 7 de Chicago” acompanha homens de diferentes movimentos políticos que protestaram contra a Guerra do Vietnã e agora precisam provar que não formavam uma organização criminosa. O problema é que o juiz parece mais empenhado em controlar os réus do que em ouvir suas versões.
A acusação nasce das manifestações realizadas em agosto de 1968. Militantes, estudantes, pacifistas e integrantes da contracultura viajaram até Chicago para protestar perto da convenção que escolheria o candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos. A prefeitura negou autorizações, a polícia ocupou parques e ruas, e os encontros terminaram em violência. Meses depois, o governo de Richard Nixon responsabilizou os organizadores, reunindo pessoas que mal trabalhavam juntas sob uma mesma denúncia de conspiração.
“Os 7 de Chicago” usa esse julgamento para criar um drama político ágil, acessível e bastante indignado. Sorkin, conhecido por diálogos velozes, encontra no tribunal um ambiente perfeito para sua escrita. Todos querem falar, poucos aceitam ouvir e o juiz Julius Hoffman, interpretado por Frank Langella, distribui advertências com a disposição de um homem que adoraria multar até o silêncio.
Grupos diferentes na mesma acusação
Tom Hayden, vivido por Eddie Redmayne, pertence ao movimento Estudantes por uma Sociedade Democrática. Ele acredita em organização, planejamento e linguagem cuidadosa. Rennie Davis, interpretado por Alex Sharp, trabalha ao seu lado e ajuda a preparar os protestos. Os dois querem demonstrar que a mobilização contra a guerra pode conquistar apoio sem perder credibilidade diante da população.
Abbie Hoffman, papel de Sacha Baron Cohen, prefere outro caminho. Líder dos Yippies, ele usa sarcasmo, apresentações públicas e provocações para expor o poder. Jerry Rubin, interpretado por Jeremy Strong, acompanha essa irreverência com entusiasmo. Para eles, seguir a etiqueta de uma instituição hostil seria aceitar as condições impostas por quem deseja silenciá-los.
David Dellinger, vivido por John Carroll Lynch, completa esse mosaico político com sua experiência no movimento pacifista. Lee Weiner, interpretado por Noah Robbins, e John Froines, papel de Daniel Flaherty, também ocupam o banco dos réus. Embora todos tenham participado da mobilização, suas funções, convicções e escolhas foram distintas. A promotoria precisa apagar essas diferenças para sustentar a ideia de um plano coletivo.
Essa reunião forçada fornece parte da graça amarga de “Os 7 de Chicago”. Hayden se irrita com as piadas de Abbie, enquanto Abbie considera a respeitabilidade de Hayden uma concessão ingênua. Os dois perseguem objetivos semelhantes, mas discordam sobre a melhor maneira de enfrentar o governo. A defesa precisa provar a inocência dos acusados enquanto administra egos, ressentimentos e uma coleção generosa de interrupções.
Bobby Seale fica sem defesa
A injustiça mais evidente envolve Bobby Seale, cofundador dos Panteras Negras, interpretado por Yahya Abdul-Mateen II. Ele esteve em Chicago por pouco tempo, não participou do planejamento feito pelos demais acusados e não integrava o grupo representado pelos advogados presentes. Mesmo assim, foi colocado no mesmo processo.
O advogado de Seale estava doente e não pôde comparecer. Por isso, o ativista pediu o adiamento de seu caso ou o direito de se defender. O juiz Julius Hoffman negou as solicitações e tentou atribuir sua representação a William Kunstler, interpretado por Mark Rylance. Tanto Kunstler quanto Seale afirmaram que essa relação profissional não existia.
Seale passa a interromper as audiências para exigir o direito de falar em nome próprio. Suas intervenções irritam o juiz, que responde com ameaças e punições. Yahya Abdul-Mateen II oferece ao personagem firmeza e vulnerabilidade sem transformá-lo em figura passiva. Seale sabe por que está sendo tratado de maneira diferente e se recusa a colaborar com uma aparência de normalidade.
Esse núcleo também expõe a distância entre os réus brancos e o integrante dos Panteras Negras. Todos enfrentam uma acusação política, mas Seale sofre uma violência institucional mais brutal. Enquanto os outros discutem estratégias de comunicação, ele luta para ter um advogado reconhecido e conservar o direito básico de responder ao tribunal.
Um juiz contra a própria audiência
Frank Langella interpreta Julius Hoffman com uma mistura desagradável de vaidade, irritação e autoritarismo. O juiz pronuncia nomes de forma errada, interrompe argumentos e trata qualquer contestação como ofensa pessoal. Também faz questão de lembrar que não possui parentesco com Abbie Hoffman, informação que se torna engraçada pela frequência e pelo excesso de solenidade.
William Kunstler tenta apresentar testemunhas, questionar policiais e separar as ações de cada acusado. Mark Rylance oferece ao advogado uma calma cansada, marcada pela consciência de que as regras podem mudar durante a partida. Quando Kunstler encontra uma brecha, o juiz fecha o caminho. Quando pede tempo, recebe pressão. Sua tarefa deixa de ser apenas defender os clientes e passa a incluir a proteção do próprio direito de defesa.
Na promotoria, Richard Schultz, interpretado por Joseph Gordon-Levitt, recebe a missão de sustentar a acusação do governo. Ele apresenta policiais, agentes infiltrados e registros de falas feitas durante os protestos. Schultz demonstra desconforto com alguns abusos ocorridos na audiência, embora continue trabalhando pela condenação. Essa ambiguidade impede que ele vire uma caricatura e também reforça sua responsabilidade por permanecer naquela função.
A rua retorna pelos depoimentos
Sorkin intercala o julgamento com lembranças dos protestos de 1968. Os depoimentos recuperam a chegada dos grupos, as tentativas de ocupar espaços públicos e a presença crescente da polícia. Cada versão acrescenta uma peça ao que aconteceu nas ruas. O recurso impede que “Os 7 de Chicago” fique preso ao tribunal e revela por que determinadas frases ganharam tamanho peso na acusação.
A montagem aproxima relatos feitos em 1969 das ações ocorridas no ano anterior. Uma pergunta leva a uma lembrança, uma declaração ganha novo contexto e uma palavra pode mudar a situação de um acusado. Esse vaivém também cria suspense, pois o público recebe as informações em partes e precisa avaliar quem tinha autoridade, quem perdeu o controle e quem se beneficiou da confusão.
O roteiro é eficiente, embora por vezes arrume os personagens com excessiva precisão. Hayden representa a disciplina, Abbie encarna a provocação, Seale enfrenta o racismo institucional e Schultz carrega a dúvida dentro da promotoria. A organização deixa a história fácil de acompanhar, mas também revela a mão do roteirista alinhando cada participante para que o debate avance no ritmo esperado.
Ainda assim, o elenco oferece vida a essas divisões. Eddie Redmayne dá a Tom Hayden uma seriedade que beira a teimosia. Sacha Baron Cohen faz de Abbie Hoffman um provocador inteligente, capaz de usar uma piada para enfraquecer a cerimônia do poder. Jeremy Strong acrescenta uma estranheza divertida a Jerry Rubin, enquanto Mark Rylance encontra humanidade no desgaste de William Kunstler.
Uma crítica política com energia
“Os 7 de Chicago” trabalha com biografia, drama e suspense sem exigir conhecimento prévio sobre a política norte-americana. O enredo apresenta os grupos, esclarece as acusações e mostra por que o julgamento se tornou maior do que os homens sentados diante do juiz. A disputa envolve liberdade de manifestação, violência policial, racismo e o uso dos tribunais contra adversários políticos.
O filme também preserva certa leveza, sobretudo nas intervenções de Abbie e Jerry. As piadas não anulam a gravidade dos acontecimentos. Elas revelam a maneira encontrada pelos Yippies para retirar autoridade de uma cerimônia montada para intimidá-los. Às vezes, o riso custa uma advertência. Em outras, oferece aos réus alguns segundos de controle sobre uma sala dominada pelo juiz.
Aaron Sorkin toma liberdades ao condensar meses de julgamento e acomodar fatos históricos dentro de uma estrutura dramática muito organizada. Essa escolha pede cautela de quem procura uma reconstituição documental. Como obra de ficção baseada em acontecimentos reais, porém, “Os 7 de Chicago” mantém o enredo compreensível e transforma discussões jurídicas em conflitos humanos.
O resultado é um drama político envolvente, sustentado por personagens que brigam até entre si pelo direito de discordar. Hayden quer ser levado a sério. Abbie quer revelar o absurdo da audiência. Seale exige uma defesa legítima. Kunstler tenta abrir espaço para todos, enquanto Julius Hoffman fecha portas, corta falas e protege sua autoridade. Nesse tribunal, falar pode custar caro, mas permanecer calado entregaria ao governo tudo o que ele foi buscar.

