No início dos anos 1970, Dick Cheney (Christian Bale) chega a Washington sem conhecer os atalhos do poder. Décadas depois, George W. Bush (Sam Rockwell) o chamaria para disputar a vice-presidência dos Estados Unidos. Entre uma coisa e outra, há uma carreira construída em gabinetes, campanhas e governos. Em “Vice”, Adam McKay acompanha essa ascensão com ironia, mas presta atenção sobretudo ao que Cheney faz quando lhe oferecem um cargo que muita gente consideraria secundário.
Antes de entrar na política, Cheney tem dificuldade para dar rumo à própria vida. Lynne Cheney (Amy Adams), sua mulher, perde a paciência com as promessas de mudança e exige atitudes. A cobrança ajuda a levá-lo a Washington, onde ele começa a trabalhar no Congresso. Sem grande habilidade para discursos, observa quem toma decisões, quem tem acesso aos chefes e quem fica esperando do lado de fora.
A carreira começa nos bastidores
É nesse ambiente que Cheney se aproxima de Donald Rumsfeld (Steve Carell), um político experiente e impaciente. Rumsfeld se diverte com a seriedade do rapaz, especialmente quando ele faz perguntas que outros teriam vergonha de formular. Cheney, por sua vez, percebe que aquele homem pode abrir portas. A relação tem momentos engraçados, embora nenhum dos dois esteja ali para fazer amigos. McKay acerta ao deixar que a diferença entre suas personalidades apareça nas conversas. Carell fala e provoca. Bale escuta, guarda a informação e espera a próxima oportunidade.
As mudanças na presidência americana criam essa oportunidade. Depois da saída de Richard Nixon, Cheney avança no governo de Gerald Ford e chega à chefia de gabinete da Casa Branca. O posto lhe dá autoridade, mas depende de uma administração que pode terminar na eleição seguinte. Ele aprende a trabalhar sob essa incerteza e procura construir uma carreira que sobreviva à perda de um chefe.
Cheney disputa uma cadeira na Câmara dos Representantes. Um problema de saúde ameaça sua campanha, e Lynne assume parte da exposição pública necessária para mantê-la em andamento. Amy Adams dá força a essas passagens porque trata Lynne como alguém com vontade própria. Ela acredita na capacidade do marido, conhece suas fraquezas e se recusa a deixar que ele desperdice a chance. A vitória leva Cheney de volta a Washington com um mandato seu.
Uma saída que parecia definitiva
Após anos no Congresso e uma passagem pelo Departamento de Defesa, Cheney deixa o governo para comandar a Halliburton. A empresa lhe oferece dinheiro e uma rotina distante das campanhas. A política, porém, ainda conhece seu nome. Quando Bush prepara a candidatura presidencial de 2000, procura alguém experiente para ajudá-lo a escolher um companheiro de chapa.
Cheney aceita examinar os possíveis candidatos. A tarefa o aproxima de Bush e lhe permite conhecer melhor o que a campanha precisa. Então surge a proposta para que ele próprio ocupe a vaga. Sua primeira reação faz sentido. Por que abandonar a direção de uma grande empresa para assumir uma vice-presidência cujas atribuições dependem, em grande parte, do presidente?
A resposta está no acordo que Cheney tenta estabelecer antes de aceitar. Bush quer ao seu lado um homem que conheça Washington e saiba lidar com assuntos de governo nos quais tem menos experiência. Cheney vê a possibilidade de participar das decisões sobre defesa, segurança e política externa. Os dois precisam um do outro, embora esperem coisas diferentes da parceria. Sam Rockwell interpreta Bush com uma informalidade que torna ainda mais curiosa a reserva de Bale. Enquanto o candidato ocupa a sala com facilidade, Cheney escolhe as palavras e presta atenção ao alcance do convite.
O peso de um cargo discreto
A vitória eleitoral põe à prova o acordo entre eles. Cheney volta à Casa Branca com atribuições maiores do que o nome do cargo sugere, e Rumsfeld também retorna ao governo. McKay acompanha essa aproximação sem exigir que o espectador conheça de antemão cada função em Washington. Basta observar quem recebe uma tarefa, quem participa de uma reunião e a quem uma decisão é levada. A política do filme fica mais interessante quando ganha essa forma concreta.
“Vice” às vezes corre depressa por décadas de história, e algumas pessoas entram em cena antes que o espectador possa conhecê-las bem. Ainda assim, Bale sustenta o centro do filme com um Cheney difícil de decifrar. Sua discrição pode ser irritante, inclusive para quem está perto dele, mas ajuda a explicar por que tanta gente demorou a prestar atenção ao vice-presidente. McKay combina essa atuação contida com uma sátira que sabe rir da solenidade dos gabinetes. A graça diminui quando as decisões passam a afetar pessoas muito além deles.
O filme encontra sua força na distância entre a aparência modesta do posto e a autoridade que Cheney busca exercer. Lynne acompanha cada passo com orgulho e cobrança. Rumsfeld reconhece no antigo protegido alguém que já sabe agir sem pedir licença a todo instante. Bush recebe a experiência que desejava para governar. Cheney, por sua vez, aceita a vice-presidência e leva para dentro da Casa Branca as condições que discutiu antes de ocupar o cargo.

