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Peter Parker gostaria muito de ter o direito de ser um imbecil por algumas semanas. Apaixonar-se, viajar com os colegas, fazer planos estúpidos, sentir ciúme, dizer coisas inconvenientes e descobrir tarde demais que estava errado são privilégios quase sagrados da adolescência, mas a aranha que o picou não estava nem aí para isso. Em “Homem-Aranha: Longe de Casa”, Jon Watts entende que a verdadeira desgraça de Peter não é enfrentar monstros: é ser convocado para salvar o mundo justamente quando tudo o que deseja é viajar pela Europa, ficar perto de MJ e descobrir se ela também pensa nele. O longa retoma o personagem depois dos acontecimentos de “Vingadores: Ultimato”, com roteiro de Chris McKenna e Erik Sommers, e transforma o luto deixado por Tony Stark em mais uma obrigação sobre os ombros estreitos de um garoto.

Tom Holland sempre funciona melhor quando Peter parece um adolescente usando uma fantasia grande demais para ele. Watts percebe isso e deixa o herói tropeçar um pouco antes que a maquinaria costumeira da Marvel tome conta. A excursão escolar reúne Ned, Betty, Flash, professores ineptos e MJ, que Zendaya interpreta com uma secura quase hostil, recusando-se a ser apenas a mocinha à espera de que o rapaz mascarado resolva seus problemas. Há uma comédia juvenil bastante saborosa escondida dentro de “Longe de Casa”, e talvez fosse até mais divertido acompanhá-la sem explosões, drones, criaturas gigantescas e agentes secretos invadindo quartos de hotel. O problema é que Peter Parker nunca conseguiu ter quinze minutos de sossego desde 1962.

Nick Fury aparece para lembrá-lo disso. Samuel L. Jackson já domina tão bem a figura do burocrata ameaçador que pode passar metade de uma cena parado e ainda assim dar a impressão de que alguém será preso por insubordinação. Ele apresenta Quentin Beck, o Mysterio de Jake Gyllenhaal, um sujeito que surge como a resposta exata para as carências do protagonista: experiente, corajoso, gentil, disposto a escutá-lo e, principalmente, suficientemente adulto para ocupar o espaço deixado por Stark. Peter quer desesperadamente acreditar naquele homem, e Gyllenhaal compreende que sua personagem depende menos de efeitos especiais que da capacidade de parecer confiável.

Mysterio entra no lugar deixado por Stark

É nesse relacionamento que o filme realmente cresce. “Longe de Casa” fala de ilusões muito antes de começar a produzi-las em escala industrial. Peter imagina que pode abandonar por algum tempo sua responsabilidade; imagina que outro herói pode assumir o posto que todos esperam que seja seu; imagina que entende MJ; imagina, sobretudo, que adultos sabem o que fazem. Poucas fantasias da adolescência são tão resistentes quanto esta última. Watts faz o filme avançar pelo processo doloroso de demolir essas certezas, e as melhores sequências chegam quando o diretor abandona por alguns minutos a estética muito higienizada do Universo Cinematográfico Marvel e mergulha Peter num espetáculo de imagens falsas, duplicações, ruínas e ameaças que se desfazem um instante antes de assumirem outra forma.

Gyllenhaal quase rouba o longa. Mysterio pertence àquela categoria de vilões que compreendem perfeitamente a fraqueza do herói e têm a cortesia de atacá-lo por ali. Ele sabe que Peter continua tentando administrar o peso da morte de Tony Stark, bem como sabe que poucas coisas seduzem mais um garoto inseguro que o reconhecimento vindo de um homem mais velho que ele admira. O grande dispositivo tecnológico em torno de Beck é barulhento, grandioso e adequadamente absurdo, porém a fraude mais eficaz continua sendo a mais antiga: dizer exatamente o que alguém precisa ouvir.

O Peter Parker por baixo do uniforme

Watts deixa Holland e Zendaya respirarem entre uma batalha e outra, o que salva o filme da condição de mero corredor entre “Ultimato” e a próxima atração do parque temático da Marvel. A química dos dois surge da imperfeição, dos silêncios desconfortáveis, das tentativas de parecer indiferente quando nenhum deles é. Peter é muito mais interessante querendo dar um presente a MJ do que derrubando prédios, e isso talvez explique a longevidade de um personagem que já atravessou inúmeras versões, intérpretes e gerações. O uniforme muda; a desastrada criatura por baixo dele permanece.

Quando lançado, “Longe de Casa” superou US$ 1,1 bilhão mundialmente e tornou-se, naquele momento, o filme de maior bilheteria da história da Sony Pictures. O dinheiro ajuda a explicar por que ninguém pretende deixar Peter Parker descansar tão cedo, mas não explica por que o público continua interessado nele. A resposta está num lugar bem menos espetacular. Heróis voam, atravessam paredes, controlam deuses e destroem cidades; Peter só quer descobrir se a garota de quem gosta gostaria de sentar ao lado dele no avião. Contra isso, até Mysterio parece uma ameaça menor.


Filme: Homem-Aranha: Longe de Casa
Diretor: Jon Watts
Ano: 2019
Gênero: Ação/Aventura/Ficção Científica
Avaliação: 4.5/5 1 1
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