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Em 1940, numa fazenda isolada em Victorville, na Califórnia, Herman J. Mankiewicz (Gary Oldman) recebe a tarefa de escrever “Cidadão Kane” para Orson Welles (Tom Burke). Ferido, dependente de álcool e afastado dos estúdios, o roteirista precisa entregar o trabalho dentro de um prazo curto. Enquanto Rita Alexander (Lily Collins) datilografa suas páginas, ele retorna mentalmente aos anos em que frequentou os círculos mais poderosos de Hollywood. “Mank”, dirigido por David Fincher, acompanha essa escrita e revela por que o texto ameaça amizades, contratos e reputações.

Mankiewicz chega à fazenda com a perna engessada e pouca disposição para obedecer. John Houseman (Sam Troughton), produtor ligado a Welles, acompanha o trabalho e tenta manter a bebida fora do alcance do escritor. A intenção é simples. Mank deve permanecer sóbrio, concentrado e produtivo até concluir o roteiro. Para um homem acostumado a escrever entre copos, festas e discussões, o plano beira a crueldade administrativa.

Rita Alexander trabalha ao lado dele, organiza as páginas e registra cada mudança. Lily Collins dá à personagem uma firmeza discreta, sem transformá-la numa secretária paciente por obrigação. Rita questiona trechos, cobra coerência e demonstra preocupação com as pessoas reais que podem ser reconhecidas naquela história. Ela sabe que o manuscrito ultrapassa os limites de uma encomenda cinematográfica.

Mank, por sua vez, trata a vigilância com ironia. Gary Oldman compõe um homem brilhante, cansado e difícil de salvar, sobretudo porque ele próprio parece pouco interessado na missão. Suas piadas ferem aliados, irritam empregadores e lhe garantem alguns minutos de superioridade. É um belo talento para quem deseja perder convites sem precisar recusá-los.

O isolamento oferece tempo para escrever, mas também obriga Mank a encarar lembranças que preferia dissolver em álcool. Cada nova página de “Cidadão Kane” incorpora algo das pessoas, dos palácios e das disputas que ele conheceu. Quanto mais o roteiro avança, maior se torna o perigo de seus antigos anfitriões reconhecerem a mobília.

Os donos dos estúdios

A história retorna aos anos 1930, quando Mank trabalhava em Hollywood e circulava pelos escritórios da Metro-Goldwyn-Mayer. Louis B. Mayer (Arliss Howard) administrava o estúdio com uma mistura de cordialidade e autoridade. Irving Thalberg (Ferdinand Kingsley) ocupava posição igualmente decisiva e conhecia o poder das imagens sobre a opinião pública.

Mank dependia daquele ambiente para receber salário, prestígio e acesso. Ainda assim, observava seus chefes com desconfiança e raramente guardava uma provocação para o momento adequado. Sua inteligência abria portas. Sua língua cuidava de deixá-las entreabertas, prontas para bater em seu rosto.

Fincher apresenta Hollywood como uma cidade governada por contratos, favores e relações cuidadosamente preservadas. Os roteiristas escrevem, os atores aparecem e os executivos escolhem quem recebe espaço. Mank conhece essa hierarquia porque já desfrutou de suas vantagens. Também sabe que uma discordância pode custar trabalho, dinheiro e presença nos círculos certos.

Uma campanha política ocorrida na Califórnia ganha importância nessas lembranças. O escritor observa o uso dos recursos do estúdio para influenciar eleitores e proteger interesses econômicos. O episódio ajuda a explicar sua crescente aversão aos homens que controlam tanto a ficção quanto as versões oferecidas ao público. Essa experiência passa a alimentar o roteiro escrito na fazenda, embora os nomes reais permaneçam fora das páginas.

Marion Davies ganha voz

Entre as figuras que Mank conhece está Marion Davies (Amanda Seyfried), atriz e companheira do magnata da imprensa William Randolph Hearst (Charles Dance). Ela vive cercada por luxo, convidados importantes e decisões tomadas por homens muito ricos. Muitos a tratam com condescendência, mas Mank percebe uma mulher inteligente, espirituosa e bastante consciente do lugar que ocupa.

Amanda Seyfried oferece uma das melhores atuações de “Mank”. Sua Marion é afetuosa sem parecer ingênua e engraçada sem virar alívio cômico. Ela conversa com o roteirista em pé de igualdade, acompanha seus comentários maliciosos e reconhece quando a bebida começa a falar mais alto. A amizade entre os dois traz calor a uma história povoada por executivos que parecem calcular até a duração dos cumprimentos.

Hearst recebe Mank em San Simeon, sua propriedade monumental na Califórnia. Charles Dance interpreta o magnata com contenção. Ele não precisa elevar a voz para lembrar aos convidados quem paga a festa. Seu patrimônio sustenta jornais, filmes e carreiras, o que torna qualquer desagrado uma ameaça profissional.

A proximidade com Marion complica a escrita de “Cidadão Kane”. Mank deseja usar o que presenciou nos salões de Hearst, mas sabe que o roteiro poderá atingir uma mulher por quem sente carinho. O trabalho deixa de ser apenas uma chance de retorno profissional. Cada página passa a cobrar dele uma escolha entre lealdade pessoal e autoria.

Welles espera pelo roteiro

Orson Welles surge como um jovem artista cercado por expectativas. Aos 24 anos, ele recebe da RKO liberdade incomum para realizar seu primeiro longa e procura Mank para escrever o projeto. Tom Burke dá ao personagem segurança, ambição e certa impaciência. Welles sabe que a oportunidade é rara e não pretende desperdiçá-la por causa dos excessos de seu colaborador.

A parceria carrega uma dificuldade desde o início. Mank precisa da encomenda para recuperar seu lugar entre os grandes roteiristas, enquanto Welles deseja uma obra capaz de confirmar sua fama. Ambos dependem do mesmo manuscrito, embora tenham interesses diferentes sobre a criação e o crédito.

John Houseman acompanha o prazo, Rita reúne as páginas e Welles aguarda o resultado. Mank escreve enquanto tenta contornar a falta de álcool e as limitações impostas por sua perna ferida. O ambiente parece tranquilo, mas o texto que nasce ali pode provocar gente acostumada a comprar silêncio, lealdade e manchetes favoráveis.

Fincher visita o cinema antigo

David Fincher alterna a escrita em 1940 com episódios da década anterior. As lembranças chegam quando alguma passagem do roteiro desperta associações em Mank. Esse movimento exige atenção, pois datas e lugares mudam com frequência. Depois que o leitor acompanha os primeiros retornos ao passado, a estrutura se torna mais fácil de seguir.

O preto e branco, o som envelhecido e as marcas que simulam trocas de rolo aproximam “Mank” do cinema produzido no período retratado. Fincher usa esses recursos para situar o espectador dentro daquela indústria. A técnica também reforça a sensação de que as recordações do protagonista já estão sendo transformadas em filme antes mesmo de chegarem ao papel.

Apesar do cuidado estético, “Mank” pode parecer distante para quem desconhece “Cidadão Kane” ou os nomes da antiga Hollywood. O roteiro escrito por Jack Fincher pressupõe alguma familiaridade com estúdios, executivos e disputas políticas do período. Há muitos personagens, mudanças temporais e referências apresentadas sem grande cerimônia. O espectador atrasado precisará correr atrás do bonde, e Mank dificilmente pedirá ao motorista que espere.

A atuação de Gary Oldman sustenta esse volume de informações. Seu Mankiewicz é divertido, irritante, generoso e autodestrutivo, muitas vezes dentro da mesma conversa. O ator preserva a inteligência do personagem sem tentar absolver seu comportamento. Mank pode identificar a hipocrisia dos poderosos e, poucos minutos depois, usar o próprio talento para humilhar alguém com menos autoridade.

“Mank” ganha força quando aproxima a criação artística das condições materiais que a cercam. Um roteiro precisa de tempo, salário, datilografia, aprovação e crédito. Herman J. Mankiewicz possui as palavras, Orson Welles possui o contrato e os magnatas possuem meios para dificultar a circulação da obra. Preso na fazenda, o escritor continua ditando a Rita enquanto novas páginas saem da máquina e tornam seu retorno a Hollywood cada vez mais arriscado.


Filme: Mank
Diretor: David Fincher
Ano: 2020
Gênero: Biografia/Drama
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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