Diz-se muita coisa a desconhecidos que jamais seria confessada aos amigos. Talvez porque amizade tenha memória e a memória seja uma espécie de arquivo criminal dos afetos: guarda o que dissemos, compara versões, reconhece reincidências, cobra coerência. O sujeito sentado ao nosso lado num avião, a mulher que espera na mesma fila ou o motorista de táxi que provavelmente nunca tornaremos a ver desfrutam de uma vantagem magnífica: podem receber nossos pecados e desaparecer com eles. “Papai” leva essa circunstância quase banal às últimas consequências, trancando Dakota Johnson e Sean Penn num táxi que sai do aeroporto JFK rumo a Manhattan e deixando que duas pessoas sem qualquer razão para confiar uma na outra façam exatamente isso. Christy Hall escreve e dirige a viagem como um duelo verbal em que ninguém precisa vencer, mas ambos têm alguma coisa a perder.
Clark conhece gente. Motoristas de táxi costumam conhecer, ainda que uma parte dessa ciência prática seja composta de preconceitos, palpites, máximas de almanaque e conclusões obtidas a partir de milhares de passageiros que entram por uma porta e desaparecem pela outra. Sean Penn compreende a natureza meio inconveniente desse homem desde a primeira pergunta. Ele fala demais, mete-se onde não foi chamado, testa fronteiras, faz juízos sobre relacionamentos de mulheres muito mais jovens e demonstra aquela segurança irritante de certos homens que envelheceram acreditando que experiência lhes conferiu uma licença especial para explicar o mundo. Seria fácil detestá-lo. Penn não deixa.
No banco traseiro está uma mulher que o roteiro chama apenas de Girlie. Dakota Johnson começa escondendo-a atrás do telefone, recebendo mensagens cuja intimidade estabelece um segundo diálogo, silencioso e muito menos inocente que a conversa com Clark. Aos poucos, entretanto, o taxista nota o que se passa. Não porque seja Sherlock Holmes ao volante de um Ford Crown Victoria, mas porque já viu a mesma história com outros rostos. A jovem volta de uma visita à família em Oklahoma, ele nasceu em Hell’s Kitchen; ela pertence a uma geração que carrega todos os seus segredos dentro de uma tela, ele vem de um tempo em que a vida privada ainda precisava de paredes. O roteiro oficial de Hall põe os dois nessa fricção desde cedo, deixando que diferenças de idade, sexo e experiência alimentem a viagem.
Nova York fica do lado de fora
O truque de “Papai” consiste em fazer a cidade permanecer quase sempre do lado de fora. Nova York, esse organismo cinematográfico explorado até a exaustão, vira um borrão de faróis, túneis e engarrafamentos, enquanto o verdadeiro trânsito acontece dentro do carro. Hall entende que um espaço pequeno pode ser maior que qualquer metrópole se duas pessoas resolverem abrir certas portas. Girlie fala sobre sua relação com um homem mais velho e emocionalmente indisponível, Clark começa a tirar conclusões que às vezes soam ofensivas e outras vezes acertam justamente porque dispensam o verniz da boa educação. A conversa escorrega para sexo, fidelidade, desejo, poder e aquela modalidade particularmente humana de autoengano na qual se aceita uma migalha de felicidade e passa-se anos chamando-a de banquete.
Há um perigo evidente num filme assim: transformar o motorista num oráculo e a passageira numa paciente. Hall chega perto algumas vezes. Clark possui respostas boas demais para perguntas que ninguém formulou, e certos diálogos denunciam a origem teatral de uma história concebida para depender quase exclusivamente da palavra. Quando Sean Penn começa a discursar em vez de conversar, o táxi parece estacionar num palco. O curioso é que Dakota Johnson o salva justamente ficando quieta. Sua personagem ouve, deixa passar, recua, sorri de um comentário obsceno e em seguida revela no rosto que alguma coisa bateu onde não devia. Johnson nunca foi uma atriz de explosões, e Hall aproveita muito bem essa qualidade que por vezes confundem com apatia. Aqui, seu silêncio trabalha.
Quando o motorista vira oráculo
O título original, “Daddio”, contém uma malícia que a tradução “Papai” conserva apenas em parte. Em determinado momento, a conversa chega à ausência paterna e à maneira como essa lacuna pode reaparecer na escolha de homens, fetiches e dependências, uma explicação que correria sério risco de psicologia de botequim não fosse o próprio filme desconfiado da facilidade com que Clark julga compreender a mulher que transporta. Ele pode estar certo. Pode também estar apenas repetindo uma história que lhe parece conhecida. E Girlie, no fundo, não precisa que aquele estranho resolva sua vida antes de o taxímetro parar.
O grande feito de Christy Hall é compreender que intimidade não depende de duração. Duas pessoas podem dividir uma casa por quarenta anos e morrer sem jamais terem falado de certas coisas; outras precisam apenas de um congestionamento entre Queens e Manhattan. Sean Penn e Dakota Johnson sustentam essa improbabilidade sem transformá-la num milagre. Quando a corrida termina, Clark continua sendo um taxista e Girlie continua levando consigo os problemas que trouxe do aeroporto. Mas alguma coisa saiu do carro antes dela, ainda que ninguém consiga dizer exatamente o quê. E talvez seja para isso que sirvam certos desconhecidos.

